quinta-feira, 20 de junho de 2019

Cio poético



E porque te vejo na Arte,
na nuvem ou na flor
que balança suavemente
na brisa outonal;

E porque te ouço no tamborilar
na chuva no telhado,
no ângelus melancólico e doce,
no trinado dos pássaros,
no rumorejar do riacho inquieto;

E porque te sinto na água tépida
que me cobre a pele num arrepio,
é que me derramo em versos,
em canções, num eterno cio...



terça-feira, 21 de maio de 2019

Constatação


Então você tem um amor...

E afinal quem não tem:
um segredo guardado,
um desejo danado
de se ter um bem?

De sair por aí
em noites de lua
pra namorar,
e um gostoso arrepio
sentindo na pele
pela leveza de se entregar
ao olhar amoroso,
ao falar carinhoso
do seu par

sábado, 4 de maio de 2019

Cântico triste


Filhos do coração,
onde ficam? Onde estão?
Vêm e vão das nossas vidas,
em tempos idos ou de agora,
e porque ao coração é dada
a memória dos seus amores,
não importa quando ou onde,
ao visitar-nos a saudade,
a alma sofre e chora.

Com Deus haverão de estar, é certo,

mas, ainda que separados por séculos,
haveremos vez ou outra,
de senti-los por perto e tão juntinhos,
que sem percebermos,
estendemos a mão num carinho...

Oh, Deus, meu Pai! Eu espero, eu creio!


quarta-feira, 1 de maio de 2019

O Eu e o eu




Eu, gêmeo de mim,
carrego no âmago
o princípio das eras,
a essência das quimeras
que me tornam o que sou.

E quando me vejo nele refletido,
ele me faz comovido
porque na sua ação
eu me desdobro
e estou contido.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Preciosa lição

 Quando os problemas da vida
te levarem à exaustão,
recorda-te da árvore amiga
a preciosa lição:ada

Cortada quase à raíz,
ela de si não esquece,
e num desvelo incansável,
caules tenros refloresce!

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Shakespeare e eu


Encontrei Shakespeare em frente a estante de Literatura Estrangeira.
Se eu trabalhasse em outro segmento escolar, talvez estranhasse o acontecimento, mas na Sala de Leitura é fato comum a qualquer momento esbarrarmos com autores dos mais diversos.

- Bom dia, Sir Willians.
E ele, olhando-me sem surpresa, respondeu gentilmente:
- Bom dia, Mrs.
- Posso ajudá-lo?
- Não quero incomodar.
- Oh, além de ser um prazer, faz parte do meu trabalho.
- Procuro um livro.
- Sobre o que?
- Sobre o século atual.
- O século XXI.
- XXI?!
- Justamente.
- Não é possível!

E olhando detidamente para si mesmo, para mim e em torno, ao deparar-se com um computador, não se conteve:

- O que é aquilo?!
- Ah, é um computador. Venha, vou mostrar-lhe como funciona.
Impressionava o ar de incredulidade no rosto do escritor, que examinava atentamente a máquina, entre a surpresa e a curiosidade, sendo finalmente vencido por esta.

Numa viagem virtual fomos até a Inglaterra e Sir Willians absolutamente aturdido, sentou-se e fez a pergunta que eu já esperava:

- Estaria eu sonhando?
- Não, Sir, tudo isso é real.
- Mas não consigo compreender tal realidade! Vejo pessoas como eu, mas vestidas de forma absolutamente fora dos costumes da minha época, a minha Inglaterra com máquinas estranhíssimas, carruagens sem cavalos, construções que até mesmo em minhas histórias, eu jamais poderia imaginar...
- São marcas e conquistas da evolução.
- E aqui onde estamos seria alguma parte ainda não explorada da Inglaterra, eu suponho.
- Não. Aqui é o Brasil, na parte sul do Continente Americano.
Sir Willians, olhando-me sem crer em tudo que via e ouvira, pediu-me uma pena e um bloco de anotações.
Ao passar-lhe uma esferográfica, ele ergue os ombros, afasta as mãos e acrescenta:
- Onde está o tinteiro?
- Essas penas, ou canetas, como se chamam na modernidade, não precisam de tinteiro. Possuem uma esfera pequenina na ponta, que libera a tinta ao ser friccionada, demonstrei rabiscando uma folha de rascunhos, aumentando a perplexidade do escritor.
- Estaria eu em algum castelo de Merlin? Aquele mago é capaz de tudo!
- Merlin talvez seja responsável por sua viagem no tempo. O senhor está na Biblioteca de uma Escola Pública, alguns séculos após o seu. Veja! Temos todas as suas obras, ou quase todas...
- Meus livros no futuro?!
- Sim.

E os olhos do velho escritor marejaram-se ao ver exemplares em inglês e português como: O Rei Lear, Macbeth, Sonho de uma Noite de Verão, Otelo, Romeu e Julieta, O Mercador de Veneza, Hamlet, A Megera Domada, suas criações seculares compondo uma das estantes sem pompas ou arabescos, mas colorida e em linhas retas, de uma escola pública do século XXI.

E eu, por saber que ninguém acreditaria num fato tão pitoresco, decidi escrever, porque a Literatura encerra a doce magia de emprestar um ar de realidade ao que nos parece impossível de acontecer.


segunda-feira, 16 de julho de 2018

Nomes



A moradora de rua conversava animadamente com alguém.
Sorria, gesticulava e parava um pouco para ouvir seu interlocutor.

Aproximou-se um gozador, sorriu maliciosamente e lançou o veneno:
- Aê, tia... tá animado o papo hein! Qual é o nome do cara de hoje?

Ela interrompeu o diálogo, olhou para o gozador como se olhasse através dele e ao mesmo tempo para dentro de si mesma e respondeu sem pressa:
- Solidão... Medo... Indiferença... Miséria.

Calou-se o gozador.
Calou-se a moradora.
Iniciei um diálogo com o meu coração...