quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Viajando


Da janela do trem que seguia lentamente eu via
as nuvens condensadas pela baixa temperatura
das frias e inesquecíveis manhãs mineiras, pousadas
- como se dormissem – sobre o leito do Rio Verde.
À medida que o sol se abria, elas começavam a se levantar:
devagar a princípio e rápidas depois, como se, na verdade,
estivessem mortas de saudade das alturas.
Aí o rio tornava-se claro com todo o seu esplendor!

O trem corria e o rio também, lado a lado,
como uma competição. Entre eles,
os moitões de capim-navalha que balançavam ao vento,
quais verdes e viçosos cabelos da terra-mãe,
terra moça e faceira, com suave fragância de
capim-limão, rosa, jasmim, sândalo, alecrim, alfazema.

De repente, a velha máquina parava e
soltava um longo apito pelo ar...
uma espécie de até logo ao rio, como se dissesse:
- Vou aliiiiiii... Volto já já já já já...
E subia a serra alta e soberana – a Mantiqueira –
que permanecia sempre lá, desafiando
a potência da velha máquina.

Quando lá em cima, qual alpinista em
escalada de suma importância, a máquina parecia
que respirava fundo a refazer-se do esforço,
e começava a descida triunfal...
O desafio fora vencido afinal, e lá embaixo o vale lhe
acenava familiar, a partir do teto das casas,
(que vistas de cima pareciam de brinquedo)
polvilhadas em meio ao verde, ladeando o rio,
que não subia a montanha, mas a contornava sabiamente.

E quando enfim o trem atingia o vale,
as pessoas, as crianças, principalmente,
corriam de vários pontos para acenar aos que passavam.
Suas mãos espalmadas no ar, nun aceno,
era o toque ameno da ternura sempre hospitaleira
daquele povo do Vale da Mantiqueira.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Relicários



Agosto, meados de 60.
Meu avô volta da lida – era como ele chamava o trabalho na roça.
Com seu jeito quieto, homem de muita ação e poucas palavras, entrega o cavalo ao Adilson, empregado seu de muitos anos, “cria da casa”, no dizer local, que ali vivera desde a infância, e o compreendia ao mínimo gesto ou olhar.
Entra, banha-se, janta, conversa um pouco com minha avó, senta-se em sua cadeira preferida: a de balanço, em frente à janela da sala; mais algumas palavras, queixa-se de um certo mal estar e pede à minha avó que chame o Francisco (pós nome de Adilson) para ajudá-lo a ir deitar-se.
Era um homem alto e forte e seria difícil para minha avó, pequenina que era transportá-lo em caso de “precisão” – sua definição de necessidade.
Deitou-se, passeou o olhar por todos os ângulos do quarto, pronunciou o nome de todos os filhos e netos numa espécie de melodia a preencher-lhe a existência e morreu.
Minha avó, atônita, grita pela filha caçula e manda Adilson correr a chamar os meninos que tinham por costume àquelas horas, irem para a venda de Manoel Miranda prosear um pouco, jogar sinuca, beber umas e outras, mexer com as mulheres ou visitar as namoradas que moravam por perto.
Adilson nem encilha o cavalo. Joga apenas o freio na cabeça do animal e em pelo, voa estrada à fora, rápido como um corisco, perdido em lembranças, afogado em lágrimas que corriam desenfreadas como o galope de Castaninho, o cavalo preferido de vovô.
Após alguns metros, chega ao destino, pula do cavalo e de pé, sem conseguir articular uma palavra, aperta aflitivamente o chapéu entre as mãos. 
Estanca-se o riso e a pilhéria. Alguém desliga o rádio de pilhas dando lugar à música imperiosa do silêncio.
Impressionante o silêncio que a morte nos impõe...
 - Foi mamãe?! Pergunta um dos filhos.
Adilson sacode a cabeça com um não muito lento.
- Zila? Pergunta outro.
Novo aceno negativo.
- Papai...
E desta vez o sim sem palavras, como se não desejasse interromper a melodia dolorosa do silêncio.
Alguém toma um dos carros e corre até a cidade para informar aos outros irmãos que lá residiam, o triste acontecimento.
E nós, que nessa época morávamos muito distante dali, no sul de Minas Gerais, só recebemos o telegrama um dia depois, justo num momento de festa quando meu pai dedilhava ao violão uma música de época, acompanhado pelos convidados.
E o silêncio nos buscou também.
O tempo, esse corcel indômito e inquieto, continuou sua corrida, e no seu galope carregou muita gente com ele. Os anos passaram, chegaram-me os filhos, os primeiros cabelos brancos, mas lembro-me de tudo isso narrado de modo contido, baixinho, como se não quisesse incomodar o sono dos mortos, por minha avó, em seus melancólicos serões de saudade.

Lembro-me tão bem, como se o tempo não tivesse passado para mim, como se fosse ontem... 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Confidências




Ontem à noite, surpresa boa!
Não é que a Lua, em pessoa,
debruçou-se na minha janela
e ficou a conversar comigo,
como se eu fosse importante, amor?!
Entre tantas coisas que foram ditas,
ela, num suspiro deixou escapar
que sente saudade das serenatas
quando via os cantores, simplesmente,
derramarem o coração ao luar...
Que linda, não?
Sente também muita falta das pessoas conversando,
dos casais namorando, das brincadeiras infantis,
dos poetas e trovadores, que a guisa
dos pintores contemporâneos de Monet,
saiam a céu aberto para registrarem
sua arte, seu amor, seu dizer...
E eu que pensava que saudade e nostalgia
era coisa só da gente, fiquei tão comovida,
que abracei a Lua e ela, num sorriso encantador,
sem pressa nenhuma não, me acenando carinhosa,
voltou  para a imensidão.
Mas deixou suas palavras, seus sentimentos,
Espalhados pelo chão de minha alma.
Então decidi organizar aquilo tudo e escrever,
mas não sou poeta... e até agora não entendi,
Sinceramente, porque ela, a madrinha de Poesia,
Escolheu justo a mim para confidente!



domingo, 7 de dezembro de 2014

Sonho bonito


Ontem eu sonhei com você, pai!
E chorei ao ouvir a sua voz,
tremi de emoção ao abraçá-lo,
e deixei a saudade falar...
Falar do seu jeito, assim,
bem baixinho, de-va-gar...
como se a voz saísse do peito
só pra não me acordar.
Sei que você já não mora mais aqui,
mudou tem um tempo, pra perto de Deus.
Por isso fico feliz quando você vem aqui nos visitar
num sonho bonito, de amor junto aos seus!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Enigma




Amigo, nasci no terreiro,
em meio à roda da rapaziada que embevecida,
ouvia a batida de um coração a compassar...

Liberto, vadio no mundo e sem preconceito,
agito no peito, no canto e na arte ou na poesia
daquele que vive em solidão...

E para que eu me apresente não é necessário
apito, pandeiro, cuíca, chocalho ou a melodia
de um violão pra acompanhar.

Basta uma lata vazia, uma mesa de bar,
a cabrocha animada e a rapaziada hilariante,
esquecida do mal, a batucar...

Então eu assumo o comando, 
não peço, nem mando, abraço a todos,
num jeito malandro e me apresento...

- Quem sou eu? Sou o samba, afinal!


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Peregrinos do universo




Encontrar-Te em cada olhar,
ver no outro um irmão,
entender que a paz se encontra
dentro do meu coração.

Desde o brilho da manhã
ao encanto do luar,
ver em tudo a poesia
que Ele veio ensinar.

Peregrinos do universo,
Uno e Versos em canção,
escrevendo pouco a pouco,
o poema infinito
que trouxemos das estrelas...

Encontrar-Te em cada olhar,
ver no outro um irmão,
aprender que o amor
é nossa religião.



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mansinha



- Deita, Genisse! Faz que tá morto!

Assim gritavam meus tios, da varanda da casa de vovó, que próxima ao curral,permitia-lhes assistir uma cena tragicômica vivida pelo irmão que voltava da boemia, bem cedinho.

Mansinha, uma vaca mocha, brava como o cão, e de cria nova então, um perigo! estava no lugar certo mas na hora errada para tio Genecy - ou Genisse, para os irmãos - que teve a infeliz ideia de cortar caminho pelo curral. Ao vê-lo, ela partiu pra cima do infeliz como um raio!

Sem outra alternativa, ele jogou-se ao solo e ali ficou, hirto como um graveto, os braços colados no corpo, a respiração suspensa, a boca cerrada e os olhos fechados.

Ela aproximou-se, parou e sem poder atingi-lo, urinou e defecou sobre o coitado que nem respirar podia!

Nisso os irmãos, munidos de garruchão – uma vara roliça com um arpão na ponta – e que pressionada no corpo do animal o faz recuar pela reação dolorosa que causa, vieram em seu socorro.

Uma vez afastada a ameaça, o coitado viu-se preso às gozações dos irmãos, às reprimendas de minha avó e de um banho, que por mais demorado que fosse, demorou toda uma vida para tirar a impressão do cheiro e da angústia vividos.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Conversê




- Comadre Nora, a comadre tá alembrada de Joana?
- Qual é Joana? Joana de Preto?
- Não. Joana de Borges, cria de Venceslau.
- Mãe de Quinzinho, o doutor que virou trapezista e de Doralice que foi estudar nas europas e voltou prenha?
- Mas não é?
- A viúva de Borges, que fazia dentadura e o povo pagava com um capado*, uma rês, um ganso ou um engradado de cerveja?
- Em pessoa...
- Me alembro, como se fosse hoje, quando ela se mudou daqui da rua, toda emproada, boatando a quatro ventos que desse lado de cá do rio não era ambiente pra criar os filhos, que o povo de cá só queria saber de conversê por cima do muro ou no portão de casa, mas isso tudo era só desculpa pra assuntar a vida dos outros.
- Isso mesmo.
- O, pessoa entojada!
- Nem me fale...
- Mas o que tem ela?
- Pois não é que a criatura me achou de morrer?!
- Valei-me, Santo Amaro! E eu aqui falando mal da finada...
Ainda bem que Deus perdoa... A pobre tinha lá os seus defeitos, mas...
- É, a gente sabe, né? Mas...
- Foi quando?
- Ontem, tarde da noite.
- E quem deu a notícia pro cê?
- O Vigário. Veio aqui cedinho! e de bicicleta, o santo!
- Não sei como não cai com aquela saia comprida nessa ventania...
- Comadre...
- Mas morreu do que mesmo, Genô?
- Não sei direito não, mas diz o povo, que ela morreu de miolo cozido.
- Ó que eu tenho pra mais de setenta e nunca escutei falar nessa maleita... O que houvera de ser?
- Que o povo não me escute, mas é bem capaz de ser que ela tivesse incomodada e daí teimou, lavou a cabeça e garrou secar o cabelo debaixo do sol quente.
- Mas foi o vigário que falou isso tudo pro cê, Genô?!
- Não, Nora, já se viu? Eu to aqui caçando na memória, coisas lá da minha infância e tenho pra mim, que muitas manias que rezava os antigos era certa, viu?                                                              
Vó Zenaide ensinou pra mãe e mãe ensinou mais eu, quando fiquei mocinha, que lavar a cabeça quando a gente fica  incomodada, ou faz maluquecer, ou cozinha os miolos e mata... Ó a prova!
- Bom, eu não gosto muito de velório, porque sou muito impressionada e fico vendo o defunto em tudo quanto é canto depois, mas em respeito a Santa Madre Igreja, vou prestar a última homenagem à finada. Vai comigo, Genô?
- Me deixa caçar um galhinho de arruda primeiro, Nora.
- Mas qual que é a serventia?
- Mãe dizia que é bom colocar um raminho atrás da orelha por causa de que o cheiro afasta as almas penadas.
- Cruz credo! Não fala essas coisas dentro de casa não, mulher! isso atrai! Ai, fiquei toda arrepiada... E se benze.
- Pega o terço, Nora.
E lá se vão as duas tagarelando pela rua sobre os mistérios da vida e da morte.

(*) Capado era um termo usado na roça para designar o porco bem gordo.



terça-feira, 18 de novembro de 2014

Espelho




No camarim do meu coração
eu me desnudo, me demaquio
e desconstruo os outros eus
em descompasso com a solidão
deixando-os em desalinho,
mas por ali, sempre à mão.
E sorrio para mim, buscando no outro eu
que se delineia no espelho do tempo -
este implacável senhor de todos nós -
um bom conselho, uma poção talvez,
que adoce as amargas desilusões do viver.



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Divina Sinfonia



Os planetas assim reunidos
em circunvoluções na pauta do infinito
produzem acordes tão nonitos,
inesquecíveis aos nossos corações.
E Deus, o Maestro sublime,
rege incansavelmente,
a melodia infinda,
a sinfonia mais linda,
linda, linda,
que se chama VIDA!

domingo, 2 de novembro de 2014

Cotidiano




Minha bisavó materna, libanesa, brava como ninguém, apesar de muitos anos no Brasil, jamais conseguiu dominar o nosso idioma.

Por causa disso, ocorreram algumas situações que apesar de dramáticas para ela, não deixavam de ser pitorescas para nós, como por exemplo, o episódio da bilheteria da estação ferroviária.

Acompanhada de uma das netas, ela aproximou-se da bilheteria e disse com seu sotaque carregado:

- Quero “bassage” para “novebessoa”

O funcionário rapidamente destacou os nove bilhetes e entregou a ela que começou a esbravejar e xingar na sua língua natal e batendo o pé, repetia:

- Eu dizer bassage pra novebessoa!

- Então senhora! Estão aqui as nove passagens.

- No! No! No! Fala netinho minha. Fala, filino, fala bra onde vovó ta indo...

- É pra Nova Iguaçu!                  


E a confusão continuou até a chegada providencial de meu avô que sabia bem o que era preciso fazer numa situação dessas.

domingo, 19 de outubro de 2014

Manía de poeta



Meu coração gosta tanto de ouvir os segredos
que o teu tem pra me contar...
pra transformar os cochichos em velhos rabiscos
que em versos vão terminar.
Meu coração tem manía de poeta,
cuja musa predileta é você,
não tem mais jeito...
Meu coração, esse estranho vagabundo,
que já cansou de correr mundo
e se mudou para o teu peito!

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Tempos e modos

                            

Imponente e imperturbável, os passos calculados, um charmoso senhor passeia pelas ruas estreitas de uma de suas propriedades nesse mundo de meu Deus: é o Tempo.

Veste-se com uma elegância discreta, fala baixo, senta-se na pracinha para observar os passantes, analisar os forasteiros, ouvir os passarinhos, as juras dos namorados, as modas de viola e discretamente, espichar o olho para ver os rabiscos de um pretenso poeta que endereça seus versos à lua, pensando na mulher amada.

Coisas assim, naquela cidadezinha emoldurada por montanhas, estâncias em flor, águas minerais, de hábitos noturnos com portas encostadas e janelas abertas, onde o Tempo se debruça para olhar a vida que prossegue em passos nupciais.

Uma curiosidade na cidadela, que de fictícia nada tem, é que de hora em hora, só para interromper o cochilo gostoso de Silêncio, surge o trem com seu  apito vigoroso.


E Silêncio então - só para disfarçar - levanta-se, passa a mão nos cabelos, olha o horizonte, visita alguns lugares e volta a cochilar na certeza que será interrompido, mais uma vez, pelo apito que, provocante, convida, desperta, excita e alerta, na noite negra ou no dia azul da charmosa cidade de Paraíba do Sul.

sábado, 27 de setembro de 2014

Mania de poeta



Meu coração gosta tanto
De ouvir os segredos
Que o teu, tem pra me contar.

Pra transformar os cochichos
Em velhos rabiscos
Que em versos vão terminar...

Meu coração tem mania de  poeta,
Cuja musa predileta é você,
Não tem mais jeito...

Meu coração, esse estranho vagabundo,
Que se cansou de correr mundo
E se mudou para o teu peito.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Tamar



Zé de Tamar era doido por uma prosa!
Era capaz de ficar horas proseando, proseando sem se cansar e quando chegava sua vez de falar, repetia conversa não!

Quando se enrabichou por Mercês, até pensou que não haveria mais precisão em sair puxando conversa com tanta gente, porque Mercês era boa de prosa como ela só...

Pronto! Tudo se arranjara.

Acontece que Mercês se bandeou lá pra Igreja do padre Justo e foi acumulando tanta reza e tanta reza e mais novena pra cá, ladainha pra lá, e dana a inventar doce de laranja da terra, bolo de banana verde, e mais curau, pamonha e sabe-se mais o quê, tudo pra ajudar na quermesse do padre Justo, que era um abnegado servidor, era isso e aquilo, e o coitado do Zé acabou ficando esquecido num canto feito um móvel fora de uso. E ainda sem o direito de fazer o que mais gostava nessa vida: prosear...

No início se ressentiu, mas com o passar do tempo o pé cria calo, como ele dizia, e Zé começou a sair.
Todo dia, na mesma horinha de sempre, lá ia ele... todo arrumadinho, o chapéu de palha meio caidinho pro lado, cavalo encilhado e vamos embora Zé, que a vida espera por ninguém não.

Até que Mercês botou tento no fato e começou a espionar o marido.

Uma noite, ele ainda com esperança de reatar a velha prosa com Mercês e tendo em troca a famosa “dor de cabeça”, o terço, a vela acesa e mais isso, mais aquilo foi deitar-se e sozinho na cama larga, suspirou:
- É, Tamar, só você mesmo tem prazer de me escutar...
“Tamar? Ah, então é esse o nome da sujeita. Tem nada não. Amanhã eu te pego no pulo, Zé. Deixa estar...” Resmungou Mercês entre dentes.

Dia seguinte, inventando desculpas com os preparativos para a festa da Paróquia, Mercês deu um jeito de se esconder e muito sem jeito, tomando um atalho por dentro do roçado, começou a seguir o marido, que sem nada suspeitar, seguia devagar pela estrada, a conversar com o cavalo pra se distrair.

Mercês, depois de se lanhar no caminho áspero entre galhos secos, arbustos cheios de espinhos, cercas com arame farpado e lodaçais, viu o Zé de longe.
“Ela deve estar escondida atrás do tronco. Aquela árvore é tão grossa que esconde bem qualquer pessoa.”

Mas faltou coragem de se aproximar dos dois, já que havia perdido um sapato na lama densa ao tentar fugir de algum perigo imaginário e com alguns arranhões, sem um dos sapatos, as pernas sujas de lama, como ela iria aparecer para a rival? Certamente a outra devia estar toda arrumada, até de batom! e Zé apreciava isso...

- Ai, Zé! Tu hás de me pagar!

E Zé, sem suspeitar de coisa alguma, montou o cavalo e tomou o caminho de volta.
Chegou primeiro que Mercês, é claro, e a infeliz da mulher ficou a pensar qual seria a melhor desculpa para justificar o seu estado, e para desespero seu, ele nem notou coisa alguma.

Dia seguinte, ela teve outra ideia:
Iria de carroça! Mas dessa forma não poderia pegar o mesmo atalho do dia anterior, e sendo assim, não poderia dar um flagra nos dois.

Foi quando apareceu o Jeremias, ou o Jerê do queijo, um primo seu que passava por aqueles sítios toda semana, oferecendo o seu produto e aproveitava para tomar um café ou um refresco e dar uns dois dedos de prosa com o Zé e ela então, teve a infeliz ideia de pedir-lhe uma carona na caminhonete até um determinado ponto da estrada, mas o marido não poderia saber.
Pronto! Olha a confusão armada...

O primo entendeu tudo errado e sem segurar o ímpeto, agarrou a mulher pela cintura e tentou ganhar um beijo, mas levou de volta uns bons tapas.

- Mulheres... o praga!

- Homens... o raça!

Mais um dia perdido...

Na Igreja já não se falava de outra coisa e rapidamente, porque quando alguém está no papel de vítima, quer falar o máximo do seu problema para angariar a piedade alheia e o atestado de coitadinho. 

E o Zé, até então da Mercês, num instante virou o Zé da Tamar.
Bom, acontece que nem sempre as coisas são o que parecem e depois de tanta confusão, disse-me-disse e até promessa, Mercês descobriu que Tamar era uma linda e frondosa tamarineira que Zé chamava carinhosamente de Tamar, num agradecimento ao fato dela não obrigá-lo a calar-se já que não tinha com quem conversar...

Hoje, coloca-se a culpa na internet ou no celular, mas na verdade, essa tecnologia socorre a quem gosta de conversar e não há nada melhor que uma boa prosa. Não um monólogo, como acabou sendo obrigado a fazer o nosso personagem, mas um falar e ouvir com atenção numa sequência educada no mesmo nível de igualdade.


Como as pessoas complicam coisas tão fáceis!

sábado, 20 de setembro de 2014

Camisola Negra


Tem dias que a noite se veste
com uma camisola negra,
bordada de estrelas,
tão linda de se ver!
E acende o lampião do luar
para olhar-se no espelho
das águas do mar.
E assim, contemplativa,
qual diva sedutora que é,
envia mil olhares aos pares por aí,
perdidos na noite a namorar...
num clima de sabor, sem igual,
A música da vida se faz

Numa paz original.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Sintese




Que encanto é esse,
Feito canto de mar,
Feito sol, jangadeiro,
Brilho no olhar...

Que silêncio é esse,
Feito noite no campo,
Lua-cheia, amplidão,
Pirilampo...

Que mistério é esse,
Feito verde de mata,
Passarinho, cigarra,
Riacho, cascata...

Que calor é esse,
Feito teto que abriga,
Feito pão, feito lar,
Feto e barriga...

Que ternura é essa,
Feito amantes no leito,
Feito filho mamando
No peito...

E que Mestre é esse,
De ditosa alegria,
A ensinar, sem escolas,
A sabedoria...

E que luz é essa
A surgir de mansinho,
Feito o Cristo em sermão
A mostrar o caminho...

Que magia é essa,
Que o pequeno agiganta,
Que inspira o poeta,
E o artista encanta?

E que força é essa,
Que supera a dor
É o Amor, é o Amor,
Ah! O Amor... 




domingo, 17 de agosto de 2014

Aventuras na sala de leitura


Encontrei Dante e Sabino num animado bate-papo na sala de leitura.
Sabino dizia-lhe que mesmo das distantes Minas Gerais, conhecia bem a sua obra e sua Itália também.
Surpreso, Dante lhe perguntou o que era Minas Gerais.
Sabino, divertido e bem humorado, explica num mineirês sem pressas ou afetações:
- Minas não é o quê, mas onde, poeta. É um lugar especial que
produziu muito ouro, pedras preciosas e turmalinas também,
produziu muita Arte desde a Barroca com Aleijadinho, a Literária e,
em meio a todas as Artes, aquela que é a mais gostosa, que dá água
na boca, só de pensar nela!
- Arte deliciosa? Não compreendo...
- É a Arte Culinária, claro!
- Melhor que a francesa?
- Ah, não tem comparação! Pães, doces, bolos, leitão à pururuca, pão de queijo, tutu de feijão, farofa... E a cachacinha? Hmmm...
- Cachacinha?! O que é isso?
- É uma bebida, sabe? Está para Minas, como o vinho está para a
Itália. E posso te garantir que nem mesmo no Olimpo os deuses
provaram coisa melhor.
- Gostaria de conhecer esse lugar mágico. É possível? Onde fica?
- No sudeste do Brasil, meu caro.
- Como se chega lá?
- Trem, ônibus, carro...
- Navio não?
- Não, porque Minas não tem mar, mas tem belos e imponentes rios,
cachoeiras, é surpreendente, e i-nes-que-cí-vel!
- Quando partimos?
- Agora, poeta.
E acenando para mim com um divertido piscar de olho, os dois
sumiram, deixando-me maravilhada com as surpresas criadas pelos
escritores e as grandes viagens que a Literatura é capaz de nos
oferecer.

sábado, 2 de agosto de 2014

A história de um rio



Eu sou um rio, meu destino é navegar,
Procurando a direção, o caminho para o mar.
Eu sou amigo do peixinho, da floresta,
Minha vida é uma festa
ao barqueiro, ao pescador.
E se não me atrapalham o caminho,
Vou seguindo, vou contente,
Espalhando muito amor!

Mas tanta gente não gosta de mim...
E quando eu passo me tratam assim:
Me jogam latas, jogam roupas e calçados,
Jogam móveis e esteiras, detergentes e venenos!
Me jogam lixo, muito lixo e garrafas,
Que sufoco, tusso espirro, pouco a pouco
Vou morrendo...

Mas sinto raiva e fico mau!
Espalho a febre, a tosse, o vírus,
E um cheiro insuportável
 vou deixando em meu caminho.

Eu queria tanto, tanto um carinho...

E as crianças que são sempre os heróis
De toda história que tem aquele final feliz,
Limpam o rio, tiram latas, roupas, lixo
Que lhe causam tanto mal...
E oferecem as plantas d’água tão verdinhas
Que os girinos e peixinhos voltam logo a brincar,

E o rio torna-se amigo e camarada,
devolvendo à criançada um espaço de lazer
Vamos nós, numa ciranda tão bonita,
respeitar a natureza, nosso mundo de prazer!