segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

O Dicionário



Em meio ao grande salão repleto de livros e pessoas - pessoas que nunca param de falar, embora falem sobre livros - levanta-se uma voz:

Não é uma voz comum. Chamando de todos a atenção, vinda de um determinado ponto de apoio, a voz era de um livro!

Mas não era um livro qualquer, era um Dicionário! E ele, de um jeito muito especial, mas muito sofrido, lança uma espécie de apelo.

- Senhoras, Senhores, peço um minuto de sua atenção para mim.                   

Eu gostaria de deixar aqui um protesto, uma observação relativa à minha própria existência. Será que eu tenho mesmo algum valor?! Ou seria apenas um apêndice a mais sobre a estante de cada um de vocês ou até mesmo servindo de apoio para alguma coisa ou a uma peça do mobiliário, como já aconteceu... então como justificar a minha existência?

Parto do princípio que se todos ou cada um de nós é criado, é desenvolvido é concluído para destinar-se a algo, exatamente para quê eu sirvo?

Já ouvi algumas pessoas me chamarem de pai dos burros! Pai dos burros...

Não sei se isso seria uma justificativa adequada para alguém que tem dúvidas a respeito de alguma palavra, algum vocábulo em uma língua, mas essa é a minha pergunta e eu deixo para que cada um a responda: qual é a minha utilidade na vida de cada um dos aprendizes, dos leitores ou amantes da leitura?

Há algum tempo eu observo que as pessoas ao me tomarem para alguma pesquisa, dão-se ao trabalho de anotarem o significado, o sentido das palavras que moram em mim, palavras essas que eu abrigo com todo carinho... (e aqui ele abaixa a voz num sussurro) às vezes elas são um tanto quanto barulhentas, mas eu consigo acalmá-las, isso posso garantir-lhes, só não me perguntem como.

Essas palavras não ficam adormecidas, semimortas dentro de um livro, absolutamente! Eu, ao contrário dos livros de Literatura, posso não oferecer uma dinâmica tão boa para as minhas residentes, mas nós nos relacionamos muito bem!

E por isso, caros leitores, eu só terei uma serventia se vocês puderem olhar para mim de uma outra forma.

O Dicionário se cala e as pessoas o aplaudem um tanto envergonhadas de sua insensatez diante de um trabalho extremamente importante para todos nós, que precisamos valorizar a dedicação exaustiva dos Dicionaristas e suas equipes incansáveis.

Um dicionário é algo que devemos cuidar, consultar, visitar! Que tal se pensássemos que os dicionários são casas que podemos adentrar livremente, mas sempre de uma maneira especial, carinhosa, como o fazemos ao visitar alguém que amamos ou admiramos a distância? 


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Fases

                                                  Para Cristina Sales

 Eis a menina... os cabelos dourados,

o sorriso maroto que se esconde,

que se esgueira por trás dos moirões,

dos troncos sinuosos de árvores estradeiras

só pra ver a vida que corre solta e livre,

tão livre quanto a menina deseja ser.

 

Mas nasceu fêmea e isso é pecado mortal!

no dizer dos antigos que teimam em

criar altares para as mulheres

e, para os homens, bridão nenhum.


Mas ela, atrevida, se esgueira silenciosa

a ouvir a conversa dos peões,

sem sensuras, sem composturas, sem peias.

Inútil atrelar arreios em potranca arredia

que se aproxima devagarinho, mas foge arisca

num galope provocante e encantador...

 

E a menina em mulher se fez,

e conquistou a independência, a relativa liberdade,

e conheceu o prazer e a dor.

Entretanto, apesar de guerreira impetuosa e forte,

não conseguiu impedir que a morte lhe

roubasse os afetos mais caros ao coração.

 

Hoje, ainda faz manha, ainda bate o pé e fala alto

quando pensa que tem razão,

mas sabe ser doce, sabe acolher

porque gosta de ter ao redor de si,

muita gente, muita gente... e assim,

ouvir o ritmo dos corações que em compassos diferentes

terminam por compor a melodia romântica, que ela,

sonha um dia inspirar, porque - ainda que não saiba -,

musa é o que a vida inteira, desejou ser.

 

                               

                                 

segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Elos



Fomos chegando aos poucos, quais elos pequeninos 

- alguns mais frágeis, outros nem tanto –

formando uma imensa e mágica corrente familiar,

estrelinhas da grande constelação,

atendendo ao chamado de corações na Terra:

*Neuza, Denilson, Creuza;

*Cinésio, Dilma, Valéria;

*Selma, Silma, Portugal, Kleber;

*Cristina, Cláudia, Marta, José Joaquim, Ana Valéria, Maria Luiza.

*Márcia, Luiz Augusto, Eliane, José Joaquim;

*Belinha, Heloisa, Jorge Luiz, Edna;

*Evaldo, Eraldo;

*Benedita (Ditinha), Solange;

Sandra, Ricardo e eu;

Integrantes de uma ciranda em flor,

cujos pólens eram transportados

carinhosamente, de quando em quando,

a uma colmeia deveras especial:

a casa de vovó Dita e vovô Joaquim,

que embora de volta à Pátria Espiritual,

nunca se foram de nós, jamais morreriam,

porque se fizeram guardiães desse grupo composto de:

S audade

A morosidade

 L iberdade de ser

 E sperança

 S olidariedade.

                                 Gratidão, Senhor!

 

 

domingo, 29 de agosto de 2021

Caminhos

 

                                                                     Para Selma Sales

Eu e o outro:
conflitos
dúvidas
segredos
sussurros
gritos
medos
incertezas.

Eu e a natureza:
silêncio
choro
mergulho em apneia
nas profundezas de mim
caminho em sentido contrário:
parto, gestação, concepção
sintonia perfeita entre
sentimento e razão.
Eu sou. A Natureza é.                                                                                         
Eu e Deus:
introspecção
renascimento
retorno ao ponto de partida
vida a
despir-me de verdades
para vestir-me de poesia.



quarta-feira, 21 de abril de 2021

Mãos dadas

O tempo, esse artista incansável, já lhes tecera no rosto as rendas de costume, já lhes embranquecera os cabelos e lhes emprestara uma certa lentidão no caminhar, mas não conseguira tirar deles o hábito antigo das mãos dadas onde quer que estivessem: na igreja, no cinema, na varanda de casa, nas ruas da cidadezinha, como se afirmassem naquele gesto uma terna cumplicidade.

Até mesmo na antiga e tão elegante namoradeira para acompanharem a novela pelo rádio, as mãos se encontravam num idílio tão bonito...

Era assim o velho casal a quem as crianças, mesmo sem parentesco algum, lhes pediam a bênção.

Era também um tempo diferente, com serenatas pela noite, lua mansa no terreiro, muita conversa boa, recitais de poesia, brincadeiras de roda, banda de música no coreto da praça, fotos do lambe-lambe, carrocinha de algodão doce...

E nem era preciso ter festa. Bastava ser domingo.

Parece que nunca existiu um tempo assim, nem costumes tão singelos, mas eu que aqui estou ainda, estive lá, morei naquela cidade, e guardei no coração tanta lembrança boa que não poderia deixar de falar sobre isso, porque a mim me parece, que nos dias atuais é muito fora de moda, ou brega -se preferirem- demonstrar-se ternura e falar-se de coisas simples, como se tivéssemos a obrigação de nos tornarmos enciclopédias ambulantes.

 

terça-feira, 6 de abril de 2021

A visita

  O silêncio da madrugada foi quebrado por algumas suaves pancadinhas à porta.

Entre o temor e a curiosidade, venceu a segunda e ao abrir a porta fiquei sem saber o que fazer ou o que dizer.

Diante de mim, em pé, estava uma cópia de mim mesma!

Embora habituada à minha figura diante do espelho, senti uma estranheza ao me ver numa outra projeção, uma espécie de 3D, algo deveras surreal para mim, embora fora acostumada a ver e ouvir fatos e relatos em situações diversas e bem diferentes do comum.

Deveria convidá-la (ou convidar-me) a entrar?

Venceu a educação e num gesto cortês e uma voz que não me vinha da garganta eu a fiz (ou me fiz) entrar.

Não sabia o que dizer.

Estranho esse sentimento de ver-nos a nós mesmos e nos sentirmos tão pouco à vontade...

Deveria oferecer um café ou quem sabe fazer uma prece?

A visitante por sua vez, nada dizia, apenas me acompanhava nos mínimos gestos com um olhar indefinível.

Sempre lera bastante sobre o Eu superior o eu comum, mas seria aquele o meu Eu superior exteriorizado?

Descansei suavemente minha mão sobre a sua e simplesmente disse num suspiro: Desculpe-me a falta de jeito, mas você sou eu e não sei como acolher a mim mesma.

Talvez resida nisso os problemas conflitantes entre nós, simples mortais, o fato de não termos aprendido a acolher a nós mesmos, vermos as nossas imperfeições como algo natural nesse processo de aprendizagem, que é viver.

Quantas vezes fomos punidos por errarmos, quando o erro é parte integrante do acerto...

Por que nossos educadores deram a fatos tão simples uma complexidade tal que o medo nos calou a voz que deveria sair da garganta e ganhar todos os espaços?

Nossos olhos marejados e as mãos trêmulas, entrelaçadas com tanta ternura, desculpavam-se ao entendermos finalmente, que não precisávamos mais buscar tantos argumentos ou justificativas porque finalmente compreendemos o valor grandioso do eu em suas dimensões e suas relações com o outro, com Deus, porque o outro sou eu e ambos estamos no mesmo Deus que há em nós.