Em meio ao grande salão repleto de livros e pessoas - pessoas que nunca param de falar, embora falem sobre livros - levanta-se uma voz:
Não é uma voz comum. Chamando de todos a atenção, vinda
de um determinado ponto de apoio, a voz era de um livro!
Mas não era um livro qualquer, era um Dicionário! E ele,
de um jeito muito especial, mas muito sofrido, lança uma espécie de apelo.
- Senhoras, Senhores, peço um minuto de sua atenção para mim.
Eu gostaria de deixar aqui um protesto, uma observação relativa à minha própria existência. Será que
eu tenho mesmo algum valor?! Ou seria apenas um apêndice a mais sobre a estante
de cada um de vocês ou até mesmo servindo de apoio para alguma coisa ou a uma
peça do mobiliário, como já aconteceu... então como justificar a minha existência?
Parto do princípio que se todos ou cada um de nós é criado,
é desenvolvido é concluído para destinar-se a algo, exatamente para quê
eu sirvo?
Já ouvi algumas pessoas me chamarem de pai dos burros!
Pai dos burros...
Não sei se isso seria uma justificativa adequada para
alguém que tem dúvidas a respeito de alguma palavra, algum vocábulo em uma
língua, mas essa é a minha pergunta e eu deixo para que cada um a responda:
qual é a minha utilidade na vida de cada um dos aprendizes, dos leitores ou
amantes da leitura?
Há algum tempo eu observo que as pessoas ao me tomarem
para alguma pesquisa, dão-se ao trabalho de anotarem o significado, o
sentido das palavras que moram em mim, palavras essas que eu abrigo com todo carinho...
(e aqui ele abaixa a voz num sussurro) às vezes elas são um tanto quanto
barulhentas, mas eu consigo acalmá-las, isso posso garantir-lhes, só não me
perguntem como.
Essas palavras não ficam adormecidas, semimortas dentro
de um livro, absolutamente! Eu, ao contrário dos livros de Literatura, posso
não oferecer uma dinâmica tão boa para as minhas residentes, mas nós
nos relacionamos muito bem!
E por isso, caros leitores, eu só terei uma serventia se
vocês puderem olhar para mim de uma outra forma.
O Dicionário se cala e as pessoas o aplaudem um tanto
envergonhadas de sua insensatez diante de um trabalho extremamente importante
para todos nós, que precisamos valorizar a dedicação exaustiva dos Dicionaristas
e suas equipes incansáveis.
Um dicionário é algo que devemos cuidar, consultar, visitar! Que tal se pensássemos que os dicionários são casas que podemos adentrar livremente, mas sempre de uma maneira especial, carinhosa, como o fazemos ao visitar alguém que amamos ou admiramos a distância?





