quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Sala de visitas



E na quinta hora de uma bela tarde primaveril,
a cidade surpreendida, para e apura o ouvido,
e aguça o olhar à beleza, ao sonho e à esperança,
à educação e à vida!
Das mil vozes que se elevam em
cariciosa manifestação cultural num encontro de gerações,
a Cinelândia – palco aberto a tantas manifestações apaixonadas -
então renovada, saudável, bonita,
transforma-se numa elegante sala de visitas,
onde professores, pais, autoridades,
cantam, dançam, aplaudem
a raça, o encanto e a ousadia,
o sim à educação e à alegria!
E o maestro, emocionado,
aplaude, sorri e agradece ao povo
que dos problemas  esquece e
brinca e sonha e ama.
Parabéns a nossa cidade
e as suas mil vozes infanto-juvenis
que se mostram maduras, adultas, responsáveis,
na conquista de sua identidade!

                       Poema premiado no concurso Poesia na Escola -2004

                       Homenagem ao Projeto Mil Vozes

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Saudades de Jesus



Saudades de Jesus, na casa de Pedro
a falar do Evangelho com naturalidade,
como uma simples conversa entre irmãos.

Saudades de Jesus, no Monte das Oliveiras,
falando com simplicidade sobre as bem-aventuranças,
imprimindo nos corações a energia da esperança.

Saudades de Jesus quando, na fonte de Jacó,
ensinou à samaritana, na lição do copo d’água,
um verdadeiro manancial de amor e transformação.

Saudades de Jesus a nos ensinar, na multiplicação
dos  peixes e dos pães, a divisão dos bens ao próximo
em nome de um Pai, que tudo nos doa generosamente.

Saudades de Jesus quando, instigado pela sagacidade,
liberta da lapidação, sem qualquer exigência,   
a mulher condenada pela intransigência dos homens.

Saudades Suas, Senhor, porque  muito embora
eu não tivesse olhos de ver, nem ouvidos de ouvir
os ensinamentos Seus, com outras coisas envolvida;


apesar de todos os meus erros, medos e enganos,
apesar do adiamento de meus deveres cumprir,
o Senhor sempre esteve presente em minha vida.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Discurso


Rio de Janeiro, verão a todo vapor, ônibus lotado, ar condicionado sem dar vazão e o cidadão em pé, próximo ao motorista, inicia o seu discurso vazio contra o governo...

Dos policiais que detêm e liberam os menores em seguida, aos milhões desviados, cantados e decantados pelo filho do ex-presidente, que aliás, nem sabe que ele, cidadão sardinha-em-lata, vive, ou melhor, sobrevive neste país, possuía também as soluções para todos os problemas aparentes e pasmem! o cidadão cogitava importar o “presidente” do Japão para colocá-lo na presidência do Brasil! Oi?! Ouvi direito?

Até aí ele falava sozinho.

De repente, outro cidadão sardinha da mesma lata, decidiu dar a sua pitada de opinião e manteve um pouco a palavra até que seu oponente, sabe-se lá porquê,  decidiu usar o termo país-continente, e percebendo que o outro não soubesse talvez o significado disso, empertigou-se todo para já passar os seus conhecimentos de geografia e história, e aí já olhando para todos os lados, buscando plateia, quando o motorista decidiu interferir, e cá entre nós,  não sem tempo:

- O meu parceiro, candidate-se logo a vereador, aproveite e reivindique para todas as frotas, um motor menos quente que esse, ar condicionado para todos os veículos, ah! e que funcionem! E, se possível, uma cabine individual para o motorista trabalhar sossegado. Falou?

Calou-se o cidadão.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Uma casa diferente



Pedro e Luzia brincavam tranquilamente na Rua dos Sonhos quando foram atraídos por uma casa.

Era uma casinha linda, toda enfeitada de estrelinhas, sois, luas, flores, corações, animaizinhos, brinquedos... tudo lindo e colorido como gostam de ver os olhos curiosos das crianças.

De repente, uma voz fininha e engraçada soou lá de cima do armário de doces:

- O-i!
- Oi! Responderam as crianças.
- Quem são vocês?
- Nós somos Pedro e Luzia. E você?
- Eu sou a letra A.
- Muito prazer!
- igualmente. O que vocês estão fazendo aqui?
- A gente brincava lá fora quando esta casa nos puxou como se fosse um grande ímã. E aqui estamos, mas e você? O que faz aqui?
- Eu moro aqui.
- Sozinha?!
- Não. Eu e meus irmãos. Querem conhecê-los?
- Claro!

E a letra A, muito rápida e esperta, desceu do armário e pulou na frente dos meninos, conduzindo-os pela casa, com muita alegria.

- Venham! É por aqui.

E naquela casinha simpática, muito à vontade, o A abriu uma certa porta e os meninos arregalaram os olhos admirados... Em meio a um salão imenso, as letras iam e vinham sem parar!

O B batia um tambor, muito sério, andando pra lá e pra cá.
O C construía casas, castelos, pontes, o que desse!
O D ditava ordens, não se sabe a quem.
O E esperava alguém, com a mão sobre os olhos, olhando ao longe.
O F falava, falava qual político em época de eleição.
O G gozava com a cara de todo mundo, ora fazendo um som, ora outro.
O H harmonizava tudo, com classe e elegância.
O I irritava-se a toa, como um velho resmungão.
O J ficava pendurado numa linha, quietinho, brincando de anzol.
O L lambuzava-se todo, com um delicioso sorvete de chocolate.
O M martelava móveis, paredes, portas e janelas, com ares de construtor.
O N ninava outro enezinho,
O O orava baixinho, contrito, revelando devoção.
O P pintava tudo que encontrava pela frente.
O Q quebrava os brinquedos, pura pirraça, querendo chamar a atenção de todos.
O R ria de tudo, um grande folgazão.
O S somava o tempo todo, numa calculadora invisível.
O T trabalhava tanto, mas tanto, que interrompê-lo parecia impossível!
O U uivava imitando um lobinho da floresta vizinha.
O V voava divertido, na vassoura da Bruxinha.
O X xingava todo mundo, bancando o mal educado.
E o Z zumbia escondido da abelhinha ao lado.

Os meninos estavam fascinados! Nunca tinham visto algo semelhante! Nunca pararam pra pensar que as letras não param nunca!

- Vocês só fazem isso o tempo todo? Perguntou Luzia.
- Não! Nós organizamos os objetos, nomeamos pessoas, lugares, classificamos pastas, compomos canções, escrevemos livros, mas o que a gente mais gosta de fazer é brincar de “virar” e “desvirar”.
- Que isso? Perguntou Pedro, sem conter a curiosidade.
- É assim.
E o A, com as mãos em concha, gritou ao seu modo:
- BÊ-Ê... vem cá.
- To indo! E veio com seu tambor atender ao chamado da irmã.
- OO O... - e cantava ao chamar.
- Já vou!
- Eeeee-leee..
- Peraí! Disse o L, limpando a boca com as costas da mão.

Quando estavam todos juntos, o A soltou a voz de comando:

- Pelotão... sentido!
- Qual é a ordem, Senhor?! Gritaram em coro as letrinhas.
- “Virar” BOLA!

E o B foi pra frente da fila, o O para trás do B, o L em seguida e o A, após passar o pelotão em revista, foi para o último lugar da fila e assim juntos, formaram a palavra BOLA.

As crianças aplaudiram sorrindo e as letrinhas agradeceram, numa reverência.

- Mais um! Mais um! Mais um! Gritaram empolgadas.
- Pelotão... sentido! Ordenou o A.
- Sim, Senhor!
- Posição para desvirar BOLA e virar LOBA. Pelotão, marcar passo: 1,2! 1,2! 1,2!

E assim, ao comando de A, o L deu dois passos atrás, girou à esquerda e posicionou-se onde estava B, enquanto este, deu dois passos à frente, girou à direita e marchou para onde anteriormente estava o L. Quando todos estavam no lugar certo, A gritou:

- Pelotão... alto!

E os meninos viram BOLA transformar-se em LOBA, mas como L  teve que correr para o banheiro por causa da gula, LOBA virou OBA e demorou tanto, que B dormiu, por isso quando ele voltou, juntou-se ao A e ao O, formando a palavra AOL, que os meninos tinham visto no computador.

Então A retirando de uma caixa, dois chapéus com formatos diferentes, formou a palavra ALÔ e em seguida, no vira-desvira, a palavra OLÁ.

Os meninos aplaudiram muito e com entusiasmo, abraçaram e beijaram as letrinhas que sempre correndo e pulando, numa energia sem fim, penduraram-se num varal de roupas e formaram a seguinte mensagem;

“Tchau Pedro e Luzia. Foi muito bom vocês terem vindo nos visitar. Voltem quando quiserem e juntos poderemos brincar muito, muito!”

- Tchau, letrinhas. Foi muito legal visitar vocês e nós vamos voltar, com certeza!

As letras retornaram as suas brincadeiras e A levou os meninos até ao portão, para despedir-se.

Nossos amiguinhos voltaram para casa, decididos a contar para todo mundo aquela grande aventura.

Mas como ninguém acreditaria neles mesmo, lembraram-se do segredo que as letrinhas amigas confiaram a eles:

- Virem escritores! Porque num livro todo mundo acredita! E foi assim que transformou-se em conto essa história tão bonita...