domingo, 22 de fevereiro de 2026

Ineditismo

 - Ei! Dá pra me ouvir?

- O quê?!

- É isso mesmo que você entendeu.

- Ouvir é uma coisa. Entender é outra.

- Quero que você me apresente para sua família, seus amigos, colegas... entendeu agora?

Talvez você pense que esse diálogo tenha se dado entre duas pessoas, o que seria algo absolutamente normal, concorda?

Mas está longe disso.

Aquela conversa era entre mim e um livro ou melhor, um pretenso livro.

É. Exatamente isso.

Ele chegou, com todas as páginas em branco, uma capa sem graça, sem desenhos ou letras e todo senhor de si, com uma prepotência irritante.

Um livro com personalidade forte. Pode isso?

Fez-se um silêncio estridente entre nós.

Nem sei dizer o que senti. Sequer medi o tempo.

Ele quebrou o silêncio.

- E aí, o que você decidiu?

- As palavras não vêm quando eu quero.

- E eu não quero continuar desse jeito.

- E se eu te apresentasse a outras pessoas? Tenho amigos escritores, sabia?

- Mas eu escolhi você.

- Nem sempre fazemos boas escolhas na vida. Concorda comigo?

- Sabe o que eu acho?

- Prefiro não saber.

- Mas eu vou dizer assim mesmo: pra mim, você tem é medo.

- Então procure alguém corajoso. Que tal?

Virou a cara pro outro lado.

Tive que rir...

-  Desculpa, vai! Afinal, não é todo dia, nem todo mundo (eu acho) que recebe em casa um livro falante.

- Desculpas aceitas com uma condição.

- Ai ai ai ai... lá vem encrenca!

- Promete que vai me apresentar aos seus contatos.

- E quem garante que eles vão gostar de você?

- Eu garanto!

- Se você em branco já é petulante assim, imagine como não será depois de escrito...

- ???

- Podemos começar amanhã?

- Olha só o resultado da sua decisão.

E quando eu o observei ele já apresentava significativas modificações na sua capa que refletia um fulgor incrível!

 


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