Gostava de ficar sentado na última
prateleira da estante onde enfileiravam-se os Clássicos da Literatura Mundial.
Às vezes mostrava-se como um menino
quieto e bastante alheio a tudo, outras vezes vestia-se de pirata ou de um
herói ao seu bel-prazer e fazendo piruetas das mais diversas, parava
subitamente, apoiando um pé no calcanhar e o outro em ponta, balançava a cabeça
cheia de guizos e dizia num gritinho: standlik!
Eu já me acostumara com sua presença e, quando
abria a porta e não o via, assoviava ou dava pancadinhas na mesa:
pam-pam-pam-ran-pam...pam! pam!
Ele então levantava a cabeça numa careta:
hora do descanso! Como eu permanecesse parada, com os braços cruzados sem
esboçar reação alguma, saltava diante de mim e fazia uma reverência galante.
- Hora do senhor ir passear...
- Nas terras do sem-fim?
- Bem além delas. Preciso trabalhar.
- Eu fico quieto, prometo!
- Suas promessas são falsas. Ade-eus...
- Puxa vida! Você é a única pessoa que
conversa comigo, que me vê e tem coragem de mandar embora?!
- Humm... chantagem emocional a essa
hora, menino?
- Posso?
- Subindo...
E voltava com um sorriso para o seu
posto.
Quando a sala se enchia das vozes e dos
olhares curiosos das crianças no contato com os livros, ele fazia caretas e
tampava os ouvidos, sempre tentando me chamar a atenção.
Era o meu duendezinho sábio, como gostava
de chamá-lo, e ele se empertigava todo fazendo
surgir do ar uma florzinha que beijava e me oferecia num galanteio, um mimo só,
o meu pequeno amigo...
- Por que você não se torna escritora?
- Quem perderia tempo em editar as minhas
bobagens? Sou uma tola romântica, nada mais.
- Ah! Aprendeu a fazer chantagem
emocional também, é? Muitas vezes funciona, viu?
- Tchau! Hora de ir para casa.
Naquela tarde levei um susto! Ao abrir
minha bolsa percebi que o meu duendezinho estava lá, muito quieto, triste de
dar dó! Parecia doente. Eu me apressei para
chegar em casa e verificar, entender o porquê daquilo tudo.
Já em casa, coloquei-o sobre os meus
joelhos e sentindo-lhe a temperatura, perguntei:
- O que você tem, meu amiguinho querido?
- Estou sumindo, não vê?
- Mas por quê?
- Ninguém liga mais pra mim...
- E eu? Não conto?
- Você é uma só.
- Que pode se multiplicar em várias...
- Sério?! Disse ele numa expressão de
dúvida.
- Quer morar aqui em casa? Assim, além de
me fazer companhia, eu cuido de você enquanto penso em como ajudá-lo. Depois
você continua no seu ir e vir de encantador de corações.
O pequeno ente energizado pelas minhas
palavras, pulou, correu, dançou e, de repente,
numa volitação graciosa, ergueu-se no ar e deu-me um beijo na ponta do nariz o
que provocou muito riso e muito espirro também.
O fim de semana foi muito produtivo
porque as idéias não paravam e eu anotava as
melhores, claro, para depois selecioná-las e colocá-las em prática.
Na semana seguinte, espalhei alguns
cartazes pequenos pelos corredores, escadas, pátio e refeitório:
Você viu o Standlik?
Não demorou muito e alguns alunos foram
me procurar na Biblioteca:
- Licença, professora?
- Pode entrar.
- Quem é o Standlik?
- Ah, ele é um ser muito especial que
morava num grande livro, mas ficou tão cansado
de nunca mais ser visto pelos leitores que decidiu sair do livrão e dar uma
volta por aí mas o coitadinho se perdeu!
- E como vamos saber quem é ele,
professora?
- Muito simples: é só começar a ler o
Grande Livro de Histórias Infanto-Juvenis, que
é uma bela coleção, viu? Ali, vocês encontrarão facilmente o nosso amiguinho
fujão.
Standlik estava furioso comigo, mas sua alegria em sentir-se novamente como parte
da vida da garotada era tanta, que ele deixou a bronca para depois.
Claro que bolamos vários jogos, cheios de
pistas falsas para chegarmos ao esconderijo do nosso duende, e quanto mais
demorávamos, mais as crianças curtiam a brincadeira, inventavam outras,
contavam histórias, relatavam sonhos onde o nosso personagem era resgatado das
mais complicadas situações e elas, as crianças, claro, eram os heróis
destemidos...
Eu,
absolutamente cúmplice do meu pequeno amigo, sentia-me divertida e confusa às
vezes, porque nunca imaginara um dia tornar-me uma espécie de fada para ajudar
um duende e tão engraçadinho, galante e moleque quanto Standlik.
Pena que as Deusas ciumentas logo, logo,
vão carregar para muito, muito longe, para outras terras, o meu duende de mim...