sexta-feira, 14 de março de 2014

Abraço



Ela surgiu de repente na curva da esquina e olhando-me nos olhos disse num arroubo:
- Salve, cigana!
Talvez pela minha preferência às saias longas e coloridas, os colares, o leque...
- Salve! Respondi cordialmente.
- Sabe, cigana, eu falo várias línguas e sei que você também há de falar.
- Apenas duas.
- Se vivo nas ruas e ando um pouco rota, a pele encardida, as unhas sujas e o cheiro não muito agradável é porque sofro de abandono. Você sabe o que é isso?
- Certamente. Afinal, sou mulher!
- E sábia.
- Ah... Se fosse sábia não sofreria...
- Posso pedir uma coisa, cigana?
- Se estiver ao meu alcance...
- Você me daria um abraço?
E diante de alguém que não esperava de mim qualquer bem material, num gesto espontâneo eu a abracei com a confiança e naturalidade de quem abraça um amigo.
- Muito obrigada! Deus a abençoe.
E se foi.
Imersa em meus pensamentos eu segui meu caminho analisando a complexidade do ser humano...

terça-feira, 4 de março de 2014

Dialética



                                             

Jogava-me pedrinhas a moça que vivia na Torre
E traziam bilhetes nelas enrolados, pequenos pergaminhos.
Ora falavam de amor, ora diziam versos.
Pequenos recados... Algumas recomendações
Segredos...
Às vezes eram rezas, verdadeiras penitências,
Quando a torre se fechava vários dias,
Noites seguidas, treva total.
Brecha alguma para a Imaginação ali adentrar.
Após o longo retiro, voltava ela. Sempre assim.
Por quê? Por que imputava sempre a si mesma
Aquela pena, a clausura...
Então ia surgindo aos poucos para não ferir
O olhar habituado ao negror da noite densa.
E voltava ela a me atirar as pedrinhas
Com suas mensagens delicadas, sutis.
Guardava as pedras num quase altar
E dos recados vertia poemas,
Poemas que falavam de um estranho amor entre
Um alguém na Torre e outro alguém na rua:
Um amor inverossímil entre mim e a Lua.

                                   


                     

sábado, 1 de março de 2014

Surpresa

                                                                            
                                                                             
 
                                                          Para Nazaré Laroca
- Ei, psiu!
Assim fez de modo bem descontraído alguém, quando a poetisa passou.
Ela buscou com o olhar em várias direções. Em vão.
A voz insistiu:
- Aqui em cima...
A poetisa olhou para o prédio à direita da praça onde caminhava todas as manhãs.
- Aqui, na árvore, menina tonta.
E a poetisa nem quis acreditar nos seus olhos...
Diáfana criatura, com tessitura de flores, de borboletas,
pousada sobre as acácias lhe acenava a sorrir.
Quem seria? Um ente dos céus? Da mitologia? Não ousava perguntar para não quebrar o encanto do momento.
Mas a aparição, como a adivinhar-lhe o pensamento, indagou:
- Não me reconheces? Tenho estado contigo em tuas noites, teus dias. Tenho mostrado a beleza do mundo, afastado a tristeza,                                        consolado a dor e estimulado a alegria.
E a poetisa, sem reter o pranto, tomou Poesia em seus braços
e de seus lábios verteram beijos em forma de poemas.
 
                                                     
                                                     

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Enrico



Na saleta de entrada da casa de tia Viturina tinha um lugar especialmente construído e adaptado para um personagem muito singular e de grande valor sentimental para ela.

Tratava-se de um guarda-chuva, que ela, muito espirituosa, munida de tintas e pincéis, emprestou ao objeto um ar tão divertido, que era impossível não rir, diante daquela figura inusitada.

Emprestou-lhe uma cara engraçada, com um dos olhos simulando uma piscadela e o canto da boca suspenso, acompanhando o movimento da piscada enquanto o outro olho, bem arregalado, com os cílios exagerados e o desnível das sobrancelhas davam ao personagem um ar absolutamente incomum.

Chamou-o de Enrico. 

A gravatinha-borboleta, luas, estrelas e corações pendurados nas ponteiras o deixavam realmente encantador!

E tia Viturina jamais se cansava de repetir de forma divertida, para quem tinha prazer de escutar, as memórias do seu guarda-chuva...

Numa tarde de primavera, a temperatura bastante elevada para a época, trouxe rajadas de vento intensas e uma chuva inesperada o que a fez atravessar a rua, buscando a proteção de alguma marquise e, na travessia, viu-se literalmente atropelada por um guarda-chuva que quase a matou de susto!

Atrás daquela peça, Vitório, um italiano muito branquinho, de olhos expressivos e um sorriso tão cativante, que tia Viturina sentiu vontade de abraçá-lo, mas foi ele quem a abraçou quase toda, pequenina que era, que nem mesmo num salto 9, atingiria o ombro do rapaz.

- Scusami, ragazza!

- Ihhhh... complicou tudo!

- Desculpa-me, senhorita!  E dentro do seu português italianado, ele desmanchou-se em desculpas, preocupado em ter machucado aquela coisinha tão pequena – mio piccolo – seu apelido carinhoso.

Daquele encontro especial ao casamento foi tudo muito rápido como rápida a ideia de transformarem o guarda-chuva num ícone que simbolizaria a grande cumplicidade entre os seus corações enamorados.

No Dia das Crianças, tia Viturina preparava docinhos, balas, pequenos jogos de adivinhação, minilivros e colocava-os em saquinhos coloridos sob o guarda- chuva, que se transformavam no centro de atenções daqueles coraçõezinhos ávidos de sonhos e ternura.

Um dia tia Viturina ouviu a queixa de uma criança:

- Ah! Pena que ele não fala...

E, então, a adorável senhorinha teve uma brilhante ideia! Pediu a Vitorio, dono de uma bela voz, que gravasse algumas histórias, alguns contos bem pitorescos e, ela ocultando o gravador atrás de Enrico, propiciava às crianças momentos mágicos ao ouvirem atentamente, as mais diferentes histórias contadas por um guarda-chuva que começavam sempre assim:

- Olá!  Eu sou o Enrico. E, você, quem é?

Era dada uma pausa, as crianças respondiam e ele continuava... a história de hoje, aconteceu de verdade, num país muito longe daqui... e ia tecendo a narrativa com tanta graça, que até o Silêncio pedia para ouvir também!

E assim, quando Vitorio viajou para as estrelas, tia Viturina continuou a alegrar as crianças e a si mesma, com o seu Enrico, que guardava as suas memórias e a voz encantadora do dono do seu coração.

  


terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Chico Riscado

 
 


 
Quando o Governo lançou o Projeto MOBRAL, eu, no afã de trabalhar, arregimentei um grupo de funcionários no extinto Matadouro Municipal de Santa Cruz, onde toda noite nos reuníamos na difícil tarefa da alfabetização.

Cada um dos alunos apresentava uma característica marcante dentro de suas vivências e experiências de vida como o mais velho do grupo, que, olhando para mim tristemente, disse que o lápis pesava muito mais entre seus dedos calejados e endurecidos que o cabo da enxada manejada por ele anos a fio, desde a infância longínqua...

Mas um deles, o seu Francisco, mereceu o destaque da memória por sua prodigiosa capacidade de contar “causos” que nunca se repetiam.                         

Uma noite, devido a uma pane na rede elétrica, nós nos sentamos do lado de fora para aguardar o retorno da energia. E ali, sob o grande lampião da lua cheia, ouvimos a narrativa entusiasmada do nosso personagem.

- A senhora já ouviu falar em corpo fechado, professora?

- Já sim, seu Francisco.

- Pois o meu avô, o finado Chico Riscado - que Deus o tenha! - tinha o corpo tão bem fechado, que nem bala atravessava!

 - Eeeeita! – exclamou Belmiro, o grande gozador da turma.

 - Um dia, aqui mesmo no largo em frente, ele foi cercado pelos cabras da polícia porque se deitou com uma rapariga e o pai dela quando soube, mandou prender. Como ele não obedeceu à voz de prisão, os cabras mandaram bala e acabou que eles mesmo saíram em desabalada carreira quando viram meu avô aparando as balas na mão, bem assim, ó!
 
E levantava a mão bem alto, a evocar a lembrança do avô - seu grande herói - naturalmente.

De outra vez foi ao cemitério – e se benzia – à meia noite pra fazer um “trabaio” e como o portão estivesse fechado e com corrente grossa, ele nem piscou:

- Abre, portão! É Chico Riscado que tá mandando!

- E o que aconteceu?

- E apois... não é que o portão abriu de fora a fora?

- Essa é de lascar! – disse Belmiro, num deboche incontido.

A gente ria muito, vendo seu Francisco contar aquilo tudo devido a  sua voz estridente e as expressões que emprestava às narrativas.

Baixinho, suspendia o corpo e estufava o peito, gesticulava muito e dependendo do “causo”, arrematava com uma sonora risada e um tapa bem forte na própria perna.

 - Tem mais alguma aí, seu Francisco?

- Tem e essa eu tava lá. Era pequeno ainda, mas lembro como fosse hoje... Chico Riscado adorava uma pescaria e dependendo do dia ia ele mais eu pra beira do rio e a gente ficava horas esperando o beliscão dos grandes porque os pequenos ele devolvia pra água. Barulho deixava ele muito bravo porque espantava os peixes.

Tava ele lá concentrado, sentado no barranco, olhando firme pra água quando sentiu alguma coisa bater no seu ombro esquerdo.
Pensando que era eu, ele olhou e viu! – e dizia, colocando o indicador sob a pálpebra inferior para dar mais ênfase ao fato.

- Viu o quê?

- Pois não era uma cobra, professora? A senhora pode até nem acreditar, mas a danada passou por trás dele, bateu com a ponta do rabo no ombro esquerdo enquanto a cabeça surgia do lado direito bem pertinho da cesta com o pescado.

- Boa tarde, Chico Riscado. – disse ela com sua voz de serpente – pode me dar uns peixinhossss?

- Eita! Uma cobra falante e educada desse jeito? Essa doeu!

 - Contenha-se, Belmiro. E seu avô, o que fez?

 - Ói, ele não só deu uns dois peixinhos – pequenos - só uns 5 kilos mais ou menos - pra ela como conversou um bom tempo com a bicha, prometendo voltar no outro dia pra contar mais “causos”.

- Olha que eu já ouvi muita mentira nessa minha longa existência  mas essa... disse uma voz que vinha do alto e, quando nós nos demos conta, não era a própria Lua quem falava?

Redonda e linda como nunca, ria-se com gosto das histórias de Chico Riscado Neto, que se tivesse se alfabetizado certamente seria um grande escritor e dos “bão!”

 


 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O relógio do galo



                                                   


O galo vinha muito triste e preocupado pelo caminho porque perdera algo de muito valor: o seu relógio.
E agora, o que fazer? O relógio o avisava a hora certinha de cantar para chamar as pessoas ao trabalho e à escola...
E o galo já quase chorava quando...

Muito devagarzinho, sem qualquer tipo de tormento na vida, vem chegando a tartaruga que o saúda alegremente.

- Olá, amigo galo! Tudo bem?
- Olá, amiga tartaruga. Ah, tudo mais ou menos.
- Posso ajudar?
 - Eu perdi meu relógio. É uma joia de família, passa de pai pra filho, sabe? E sem ele como vou acordar as pessoas? Esse é o meu trabalho.
- Você tem razão, amigo, mas logo, logo vai encontrá-lo, acredite.
- Como você sabe?
- Porque os sábios ensinam que “tudo que é nosso, um dia volta para nós.” Quer que eu o ajude a procurar?
- Oh, sim! Obrigado. Vamos procurar juntos, então. Eu sigo pela direita e você, pela esquerda e depois nos encontramos aqui mesmo, certo?
- Certo. Ah, e como é o seu relógio?
- Boa pergunta. Ele se parece com o sol.
- Está bem. Tchau.
- Tchau.

E eles saem olhando muito atentamente para todos os lugares, procurando o relógio tão importante.

Nisso, surge um macaquinho trazendo algo pendurado no braço.
- Oba! Achei um relógio! Se eu vendê-lo, vou ganhar um dinheiro e poder me mudar para outra floresta. Nesta daqui é sempre tudo muito igual, as mesmas árvores, os mesmos animais... Eu quero é viajar, conhecer outras florestas, outros bichos, quem sabe até conhecer uma macaquinha esperta e ficar com ela...

Assim dizendo, sobe num toco e começa a sua propaganda:

- Atenção! Atenção! Eu herdei esse lindo relógio do meu avô, mas eu preciso vendê-lo porque a vida anda difícil, tudo muito caro, e eu preciso de um dinheirinho para realizar alguns projetos... Vinte e cinco! Vinte e cinco! Quem deseja? Quem vai levar?

- Vinte cinco, senhor macaco? Auuuu... - perguntou um lobo que passava por ali.
- Cento e vinte e cinco, senhor lobo.
- Eu pensei ter ouvido vinte e cinco.
- Com certeza o seu uivo atrapalhou um pouquinho.
- Ah, que pena! Não tenho todo esse dinheiro. Fica para uma outra vez. Auuuu...

- Cento e vinte e cinco! Cento e vinte e cinco apenas por este relógio. Quem vai levar?
- Cento e vinte e cinco? - perguntou o tucano interrompendo o voo.
- Não, senhor tucano, eu disse mil cento e vinte e cinco! O barulho de suas asas não deixou o senhor ouvir direito.
- Ah, é muito caro para mim.
- Podemos dividir em cinco vezes. Não é bom?
- Sinto muito, mas não tenho todo esse dinheiro, disse o tucano levantando voo. (Reloginho caro, esse – resmungou ele...)

- Tucaninho pão duro! Mil cento e vinte cinco! Somente mil cento e vinte e cinco...

Assim o macaquinho decidiu continuar seu negócio, mas mudou de ideia rapidamente ao ver uma onça com cara de poucos amigos  a mostrar-lhe os dentes enormes, sem a menor paciência para negociatas...  o que o obrigou a subir ligeiro na árvore mais próxima, seguido pela onça que também sabe escalar as altas árvores.

E agora?
O jeito era saltar de árvore em árvore o mais depressa possível e tratar de salvar a sua vida.
Só que, naquela corrida toda, o relógio escorregou do seu braço e caiu bem na frente da tartaruga que passava por ali naquele exato momento.

- Ora, ora, ora... mas não é o relógio do meu amigo galo? Galoooo, gaaaalo! Vem ver o que eu achei!

Vem o galo correndo e arfando.

- Obrigado! Muito obrigado, amiga tartaruga. Onde ele estava?
- Acho que com o próprio sol... hi hi hi... Não falei que tudo que é nosso volta para nós?

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Standlik

                                                                             





Gostava de ficar sentado na última prateleira da estante onde enfileiravam-se os Clássicos da Literatura Mundial.                                                            
Às vezes mostrava-se como um menino quieto e bastante alheio a tudo, outras vezes vestia-se de pirata ou de um herói ao seu bel-prazer e fazendo piruetas das mais diversas, parava subitamente, apoiando um pé no calcanhar e o outro em ponta, balançava a cabeça cheia de guizos e dizia num gritinho: standlik!
Eu já me acostumara com sua presença e, quando abria a porta e não o via, assoviava ou dava pancadinhas na mesa: pam-pam-pam-ran-pam...pam! pam!
Ele então levantava a cabeça numa careta: hora do descanso! Como eu permanecesse parada, com os braços cruzados sem esboçar reação alguma, saltava diante de mim e fazia uma reverência galante.
- Hora do senhor ir passear...
- Nas terras do sem-fim?
- Bem além delas. Preciso trabalhar.
- Eu fico quieto, prometo!
- Suas promessas são falsas. Ade-eus...
- Puxa vida! Você é a única pessoa que conversa comigo, que me vê e tem coragem de mandar embora?!
- Humm... chantagem emocional a essa hora, menino?
- Posso?
- Subindo...
E voltava com um sorriso para o seu posto.

Quando a sala se enchia das vozes e dos olhares curiosos das crianças no contato com os livros, ele fazia caretas e tampava os ouvidos, sempre tentando me chamar a atenção.
Era o meu duendezinho sábio, como gostava de chamá-lo, e ele se empertigava todo fazendo surgir do ar uma florzinha que beijava e me oferecia num galanteio, um mimo só, o meu pequeno amigo...
- Por que você não se torna escritora?
- Quem perderia tempo em editar as minhas bobagens? Sou uma tola romântica, nada mais.
- Ah! Aprendeu a fazer chantagem emocional também, é? Muitas vezes funciona, viu?
- Tchau! Hora de ir para casa.
Naquela tarde levei um susto! Ao abrir minha bolsa percebi que o meu duendezinho estava lá, muito quieto, triste de dar dó! Parecia  doente. Eu me apressei para chegar em casa e verificar, entender o porquê daquilo tudo.
Já em casa, coloquei-o sobre os meus joelhos e sentindo-lhe a temperatura, perguntei:
- O que você tem, meu amiguinho querido?
- Estou sumindo, não vê?
- Mas por quê?
- Ninguém liga mais pra mim...
- E eu? Não conto?
- Você é uma só.
- Que pode se multiplicar em várias...
- Sério?! Disse ele numa expressão de dúvida.
- Quer morar aqui em casa? Assim, além de me fazer companhia, eu cuido de você enquanto penso em como ajudá-lo. Depois você continua no seu ir e vir de encantador de corações.
O pequeno ente energizado pelas minhas palavras, pulou, correu, dançou e, de repente, numa volitação graciosa, ergueu-se no ar e deu-me um beijo na ponta do nariz o que provocou muito riso e muito espirro também.
O fim de semana foi muito produtivo porque as idéias não paravam e eu anotava as melhores, claro, para depois selecioná-las e colocá-las em prática.
Na semana seguinte, espalhei alguns cartazes pequenos pelos corredores, escadas, pátio e refeitório:
                         
                         Você viu o Standlik?

Não demorou muito e alguns alunos foram me procurar na Biblioteca:
- Licença, professora?
- Pode entrar.
- Quem é o Standlik?
- Ah, ele é um ser muito especial que morava num grande livro, mas ficou tão cansado de nunca mais ser visto pelos leitores que decidiu sair do livrão e dar uma volta por aí mas o coitadinho se perdeu!
- E como vamos saber quem é ele, professora?
- Muito simples: é só começar a ler o Grande Livro de Histórias Infanto-Juvenis, que é uma bela coleção, viu? Ali, vocês encontrarão facilmente o nosso amiguinho fujão.
Standlik estava furioso comigo, mas sua alegria em sentir-se novamente como parte da vida da garotada era tanta, que ele deixou a bronca para depois.
Claro que bolamos vários jogos, cheios de pistas falsas para chegarmos ao esconderijo do nosso duende, e quanto mais demorávamos, mais as crianças curtiam a brincadeira, inventavam outras, contavam histórias, relatavam sonhos onde o nosso personagem era resgatado das mais complicadas situações e elas, as crianças, claro, eram os heróis destemidos...
 Eu, absolutamente cúmplice do meu pequeno amigo, sentia-me divertida e confusa às vezes, porque nunca imaginara um dia tornar-me uma espécie de fada para ajudar um duende e tão engraçadinho, galante e moleque quanto Standlik.
Pena que as Deusas ciumentas logo, logo, vão carregar para muito, muito longe, para outras terras, o meu duende de mim...