sexta-feira, 18 de abril de 2014

Descoberta





Já viu um pintinho quebrando a casca e saindo do ovo?
Assim sou eu diante de ti.

Vou me revelando e te descobrindo tão lento o quanto me permita a dilatação pupilar do ser.

Permita-me o palmilhar inseguro dos primeiros passos ao teu redor, admirando-te, aprendendo a reconhecer-te para, afinal, reencontrar a mim mesmo.

Não me impeças os movimentos, ainda que te pareçam lentos ou desajeitados.


Não deixes que eu me aborte, desviando a sorte, o destino deste meu viver.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Língua





Lambe a saudade a Língua-mater.
E se seus primeiros passos são vacilantes,
A cada lambida se fortalece e cabriola       

Depois se apressa, corre, voa                    
e invade o coração do filho que, distante,    
suspira e chora.

E, no corisco que risca o céu tempestuoso,
Ao ver plasmarem-se paisagens, cidades, rostos mil,
Arrisca o rabiscar do que pensa ser um verso
Que traduza com veracidade a falta do Brasil.

                         
                       


domingo, 6 de abril de 2014

Carona



Sua voz
Pediu carona ao luar
Para entrar
Pela janela do apartamento...
E despertou meu coração,
Adormecido há tanto tempo,
Que nem sei!
E o que se deu...
... Só sei dizer
Que ele agora é todo seu!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Em busca



Procura-se um poeta
Que saiba na-mo-rar...
E sob a luz da lua
Convide pra... dançar!

Procura-se um poeta
Que faça-nos... sorrir!
E tenha um jeito livre
Pronto a... seduzir!

Procura-se um poeta
Que não tenha ninguém,
Mas que ainda se encontre
À procura de um bem!

Poeta, onde estás?
Pergunta o meu coração
Que anda e busca
De uma grande emoção!


sexta-feira, 28 de março de 2014

Sem palavras

                                                                       
                                                                                 


Hoje a Saudade estava tão carente 
que sequer telefonou pra dizer que vinha...
Apareceu assim, de repente, 
dizendo não suportar mais tanto tempo,
tanto tempo sozinha.
E quando não se aninhava em meu peito, dengosa,
Puxava-me pela saia a chorar pela ausência sua...
O que digo a ela, meu amor?

sexta-feira, 21 de março de 2014

Nhá Chica

                                                                                                       


O rio ainda é o mesmo, mas o olhar de Nhá Chica há muito perdeu o brilho e a capacidade de correr junto daquelas águas mansas e barrentas que tão bem conhecia .

Bastava um peixe pular das águas para ela bater palmas com as mãos abertas e o sorriso estampado no rosto amigo e bom daquelas pessoas que nasceram só para fazer o bem!

Nhá Chica, ribeirinha de nascença, ganhou até nome pomposo quando aportou nesse mundo: Francisca Maria Ribeiro do Nascimento, mas para os mais chegados, os de casa, era Nhá Chica do rio, mesmo...

Mãos maltratadas de mulher trabalhadeira que, embora não tenha domado muito bem o lápis e as letras, conseguiu escrever a vida de cada um, a história do lugar.

A pé, de canoa, a vau, em lombo de burro, de carroça, de carroceria, do jeito que desse, sob chuva ou sol a pino, madrugada ou dia alto, lá ia ela... O terço na mão, “mode dar segurança”, o “emborná” com os instrumentos de trabalho: o copo de alumínio, pra escutar as “andança” do corpo, a medalhinha de Nossa Senhora do Bom Parto pra botar em cima da barriga, “mode” a criança não subir. Quando sobe, a “muié” gorgita e “atrapaia” tudo, sabe moça?

Cobrar, nunca cobrou nada, mas aceitava os santinhos, as misturas, um cafezinho com rapadura, uma toalhinha, coisas assim, mas a paga que nunca podia faltar era o nascido de suas mãos chamá-la de madrinha. Ah, isso ela fazia questão!

E não tomasse a bênção não, que Nhá Chica fechava o tempo! “Ara! Já se viu?!”

Mais da metade da população ribeirinha era afilhada de Nhá Chica.
Mais da metade herdou a reza boa, as boas palavras, aquelas que livram de todo “má”, os de fora e os de dentro...

Como é isso, Nhá Chica?

Ah, os de fora vem dos outros, é mais fácil de combater, mas os de dentro, vem de nós mesmos, fia. Esse é o mais perigoso. Difiiiicil...

O resto Nosso Senhor toma conta. Carece ter medo não. Carece mais viver e entender que tudo que Deus faz é “bão.” Inté!

A canoa me espera e eu sigo pensando em tudo que vi e ouvi e na grande força que brota dessa gente que parece nutrir-se do rio, que incansável, prossegue no seu caminho de eterno servidor.