sexta-feira, 11 de março de 2016
Mania antiga
Calou-se o meu violão:
não mais a música ali,
não mais a inspiração,
emoção termina aqui.
Calou-se o meu coração:
não mais os versos que eu fiz,
não mais a mesma ilusão,
mania antiga de ser feliz...
sexta-feira, 4 de março de 2016
O fantasma
Meu avô materno adorava contar histórias e uma delas, a
que mais prendia a atenção e a respiração, era a de João de Calais, um jovem
que saiu pelo mundo viajando, sabe-se lá a procura de quê.
De pouso em pouso, chegou ao Castelo mais afamado da
região, pelos muitos fantasmas que ali habitavam.
Muito cansado, subiu para o seu quarto e após deitar-se
na cama enorme e aconchegante, passeou o olhar pelo ambiente e apagou a luz
para dormir.
Mas...
- Ai! Ai! Eu caio... eu caio...
João levantou-se e, espírito investigativo, começou a
procurar a direção da voz.
- Eu caio...
- Ora, meu amigo, pare de cair então.
- Como?!
- Pare de cair e entre, disse ele abrindo a janela.
- Mas isso não está certo!
- O que não está certo, meu caro?
- Você não ter medo de mim!
- E por que deveria?
- Eu sou um fantasma!
- Muito prazer, senhor fantasma. Eu sou João.
O fantasma, meio desnorteado, ficou sem saber o que
dizer.
Por incrível que pareça, ele percebeu numa fração de
segundos, que ele só sabia fazer a mesma coisa durante anos, séculos talvez;
ele só se repetia, e concluiu, tristemente, que perdera algo precioso demais em
sua vida: o tempo!
Começou a chorar.
- Ora, meu caro, chorar não resolve problemas. Pode
aliviar o peso da carga, mas não resolve. Vamos pensar juntos.
- Mas... mas...
- Mas o que, meu amigo?
- Nunca ninguém me tratou assim antes! Quem é o senhor?
- Eu sou o João. E você?
- Sabe que eu nem sei meu nome mais? Virei o Fantasma
do quarto escarlate...
- Então vou sugerir um nome pra você: Henrique! Que
tal?
- Henrique?! É nome de nobre por aqui.
- Então ficamos assim, você será Henrique, até lembrar-se
do seu nome verdadeiro, concorda?
- Sim, obrigado. Mas e o senhor, de onde vem?
- De longe, muito longe...
- A procura de que? De quem?
- De mim mesmo.
- Eu não sei quem sou, e o senhor está a procura de si
mesmo...
- Não me trate de senhor. Vejo que você, Henrique, está
recuperando a sua capacidade crítica, o que é muito bom. Vamos comer alguma
coisa?
- Comer?!
- Sim. Eu sempre tenho em meu alforje um bom pedaço de
bolo ou de pão, que procuro guardar para os momentos de emergência.
- Mas eu não me lembro se fantasmas se alimentam, João.
- Lembre-se do tempo que você não era fantasma, pronto!
Vê se dá certo.
Henrique sorriu e sentiu-se bem com aquele sentimento
de alegria, que quase não se lembrava mais como era...
Sentiu o aroma do bolo e percebeu que salivava!
Pensando bem, essa era a segunda reação humana que produzia! Primeiro, as
lágrimas e agora a saliva...
Olhou para João e sentiu vontade de abraçá-lo, mas
conteve o seu ímpeto.
Provou um pequeno pedaço do bolo e ao sentir o sabor
tão doce, sorriu de prazer.
Quanta coisa uma pessoa bem intencionada é capaz de
fazer por alguém, ainda que esse alguém seja um fantasma, sem noção de tempo,
sem saber fazer outra coisa na vida, que não seja assustar, intimidar. Que
perda de tempo, não é mesmo?
- Bem, João, eu já abusei muito da sua hospitalidade.
Agora eu preciso ir embora.
- Mas você tem para onde ir?
- Eu moro do lado de fora da janela.
- Enquanto eu estiver por aqui, você pode se acomodar
onde quiser. Olha, aqui tem um sofá bem confortável. As cobertas estão ali na
cômoda.
- Sabe, João, eu não me lembro de ter sido tratado
assim, com tanta humanidade, há muito tempo... Nunca vou poder pagar esse
favor.
- Não faço o que faço pelos outros pensando em pagamentos
de volta. Faço simplesmente porque acho que é meu dever ajudar quem precisa.
Talvez um dia eu também precise da ajuda de alguém, não é mesmo?
- Veja como é a vida... eu precisei morrer primeiro
para aprender depois e justamente com alguém que eu deveria assustar, apavorar,
bater em retirada e no entanto...
- Ora, meu caro, um dos fatores que geram a violência
entre os homens, é o medo. O medo tem dois lados. Um intimida e vitimiza o
outro se acovarda e se subordina e nessa relação desigual, a semente da guerra
se reproduz e em escala cada vez maior.
- E você acredita que um dia o mundo melhore?
- Só depende de nós mesmos. Afinal, o que é do mundo
sem as pessoas? Temos notícias de muitos mundos gravitando em torno de nós, mas
onde estão os habitantes? Onde as árvores, as montanhas, as cachoeiras, os
animais, as cidades?
- Nunca tinha pensado nisso...
- É, mas é bom começar a pensar, viu? Você acredita em
Deus, Henrique?
- Sabe que essa é uma pergunta que eu nunca me fiz? Eu
sempre acreditei muito em mim mesmo.
- Então já tenho a resposta. Boa noite!
João dormiu profundamente, mas o nosso fantasminha
querido ficou de plantão, pensando... pensando...
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Mochilas cansadas
Cresce, e de forma um tanto preocupante, o caso das
mochilas cansadas nos coletivos da nossa cidade.
Algumas percorrem um trajeto tão longo, que haja paciência
e tolerância da população com os novos casos endêmicos, creio eu, mas creio
também, seja necessário que as autoridades se mobilizem antes que isso vire uma
epidemia...
Possívelmente o leitor pense que a blogueira seja vítima
de uma alucinação ou que a idade já apresente sintomas de uma possível
caduquice, mas é a mais absoluta realidade, infelizmente.
Talvez seja uma incompatibilidade entre as velhas
mochilas e seus donos, e por isso, quem sabe, elas se recusem a viajar no colo
deles, então vão para o banco ao lado para não terem que ficar no chão,
coitadas.
Pobres de nós, os tímidos, que não temos coragem de
discutir com as mochilas, nem lembrar a elas os nossos direitos. Imagine!
Afinal, quem quiser conforto que ande de táxi, como já
disseram algumas mais petulantes, a quem ousou desafiá-las.
É meus amigos, o caso é sério...
Talvez eu devesse fotografar alguns casos, mas pensando
bem, prefiro utilizar a câmara do celular para registrar coisas melhores, bonitas,
porque de coisas feias a gente já anda saturado, concordam?
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Refúgio
Sigo lentamente contra a correnteza do riacho cristalino,
que reflete em suas águas sussurrantes, o nosso velho bosque e as nuvens que se
debruçam no infinito.
Conheço cada pedra que repousa no fundo deste leito e
elas me levam até você, meu amigo querido, que sereno e atencioso, me espera com ânimo forte e este sorriso encantador...
A cabana de troncos, com janelas sempre abertas,
cortinas vaporosas e esvoaçantes que dançam livremente com o vento manso que
circula pelas árvores amigas fazendo-as cantar canções de cigarras, de pássaros,
de folhas murmurantes ou ainda se aquieta e nos convida a ouvir a melodia maviosa do silêncio de
um entardecer...
Na sala, muitos livros, quadros, uma rede e um violão.
Na casa toda você, você e sua energia amorosa, que me
completa e inspira.
Não precisamos de mais nada...
Afinal, com uma natureza exuberante como essa, um
ambiente mágico totalmente ao nosso dispor e este sentimento que se perde nas
dobras do tempo, não sobra muito espaço para coisas materiais.
E para que nos preocuparmos com o tempo se nos
desfizemos dos relógios?! E sorrimos, cúmplices, cada vez que nos lembramos
deste acordo - um tanto adolescente - para nossa idade real, mas se não há tempo, nem relógio, onde a idade?
E ao cair da noite saímos abraçados para contemplar as estrelas que vêm nos contar as mais lindas histórias de um tempo em que os homens,
cansados da guerra, construíram cidades da paz e puderam saborear, sem pressa,
o fruto da felicidade.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Valores
O que realmente tem valor na nossa vida?
Há alguns anos eu fiz parte de um grupo de visitação ao
Hospital Colônia dos Hansenianos de Jacarepaguá, onde íamos uma vez por mês e
ali, aprendíamos lições inesperadas e inesquecíveis.
Após a prece na Casa Espírita Filhos de Deus,
caminhávamos por algumas alas onde ouvíamos os depoimentos de alguns internos e
por último, nos dirigíamos ao Pavilhão, um prédio mais afastado para onde eram
removidos aqueles que não tinham mais chances de sobrevivência.
Seu José, um senhorzinho conversador, ocupante de um
dos leitos emoldurados pela janela aberta, foi o que mais me marcou o coração
naquele longínquo domingo.
Ao despedir-me perguntei a ele com muita simplicidade:
- O que o senhor quer a gente lhe traga no mês que vem,
seu José?
Esperava que ele me pedisse algo material, como é de
praxe acontecer com a maioria de nós.
No entanto sem pressa, retendo minha mão entre as suas,
respondeu quase num suspiro...
- O seu sorriso.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2016
Sala de visitas
E na quinta hora de uma bela tarde primaveril,
a cidade surpreendida, para e apura o ouvido,
e aguça o olhar à beleza, ao sonho e à esperança,
à educação e à vida!
Das mil vozes que se elevam em
cariciosa manifestação cultural num encontro de
gerações,
a Cinelândia – palco aberto a tantas manifestações
apaixonadas -
então renovada, saudável, bonita,
transforma-se numa elegante sala de visitas,
onde professores, pais, autoridades,
cantam, dançam, aplaudem
a raça, o encanto e a ousadia,
o sim à educação e à alegria!
E o maestro, emocionado,
aplaude, sorri e agradece ao povo
que dos problemas
esquece e
brinca e sonha e ama.
Parabéns a nossa cidade
e as suas mil vozes infanto-juvenis
que se mostram maduras, adultas, responsáveis,
na conquista de sua identidade!
Poema premiado no concurso Poesia na Escola -2004
Homenagem ao Projeto Mil Vozes
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Saudades de Jesus
Saudades de Jesus, na casa de Pedro
a falar do Evangelho com naturalidade,
como uma simples conversa entre irmãos.
Saudades de Jesus, no Monte das Oliveiras,
falando com simplicidade sobre as bem-aventuranças,
imprimindo nos corações a energia da esperança.
Saudades de Jesus quando, na fonte de Jacó,
ensinou à samaritana, na lição do copo d’água,
um verdadeiro manancial de amor e transformação.
Saudades de Jesus a nos ensinar, na multiplicação
dos peixes e dos
pães, a divisão dos bens ao próximo
em nome de um Pai, que tudo nos doa generosamente.
Saudades de Jesus quando, instigado pela sagacidade,
liberta da lapidação, sem qualquer exigência,
a mulher condenada pela intransigência dos homens.
Saudades Suas, Senhor, porque muito embora
eu não tivesse olhos de ver, nem ouvidos de ouvir
os ensinamentos Seus, com outras coisas envolvida;
apesar de todos os meus erros, medos e enganos,
apesar do adiamento de meus deveres cumprir,
o Senhor sempre esteve
presente em minha vida.
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