Entre o temor e a curiosidade, venceu a segunda e ao
abrir a porta fiquei sem saber o que fazer ou o que dizer.
Diante de mim, em pé, estava uma cópia de mim mesma!
Embora habituada à minha figura diante do espelho, senti
uma estranheza ao me ver numa outra projeção, uma espécie de 3D, algo deveras
surreal para mim, embora fora acostumada a ver e ouvir fatos e relatos em
situações diversas e bem diferentes do comum.
Deveria convidá-la (ou convidar-me) a entrar?
Venceu a educação e num gesto cortês e uma voz que não me
vinha da garganta eu a fiz (ou me fiz) entrar.
Não sabia o que dizer.
Estranho esse sentimento de ver-nos a nós mesmos e nos
sentirmos tão pouco à vontade...
Deveria oferecer um café ou quem sabe fazer uma prece?
A visitante por sua vez, nada dizia, apenas me acompanhava nos mínimos gestos com um olhar indefinível.
Sempre lera bastante sobre o Eu superior o eu comum, mas seria aquele o meu Eu superior exteriorizado?
Descansei suavemente minha mão sobre a sua e simplesmente
disse num suspiro: Desculpe-me a falta de jeito, mas você sou eu e não sei como
acolher a mim mesma.
Talvez resida nisso os problemas conflitantes entre nós,
simples mortais, o fato de não termos aprendido a acolher a nós mesmos, vermos
as nossas imperfeições como algo natural nesse processo de aprendizagem, que é
viver.
Quantas vezes fomos punidos por errarmos, quando o erro é
parte integrante do acerto...
Por que nossos educadores deram a fatos tão simples uma
complexidade tal que o medo nos calou a voz que deveria sair da garganta e
ganhar todos os espaços?
Nossos olhos marejados e as mãos trêmulas, entrelaçadas
com tanta ternura, desculpavam-se ao entendermos finalmente, que não
precisávamos mais buscar tantos argumentos ou justificativas porque finalmente
compreendemos o valor grandioso do eu em suas dimensões e suas relações com o
outro, com Deus, porque o outro sou eu e ambos estamos no mesmo Deus que há em
nós.






