- Por que eu não posso ser uma flor?
- Porque as leis da natureza são intocáveis.
- Nem se eu desejasse
muito, muito?
- Nem mesmo
assim. Já pensou se todos os desejos estranhos pudessem se realizar?
- Mas seria só o
meu...
- E qual a razão desse
desejo?
- É que flores não têm
problemas.
- Pois vou apontar um: fragilidade. Se surgir
um vento ou chuva forte, as flores não resistem e morrem antes do tempo
previsto.
- Ah, então eu poderia
ser uma árvore...
- O que tanto a
aflige, Djanira?
- Problemas que não
consigo resolver, tristezas que não posso esquecer e dores que não sei curar.
- Você precisa
atravessar o Vale Encantado e do outro lado obterá o que
tanto necessita.
- Onde é?
- Sua intuição a
levará até ele. Mas lembre-se: para atravessar o Vale é preciso
antes, encontrar
Levinho.
- Levinho? Quem é?
- Você saberá. Aliás,
eu me expressei mal: é preciso deixar-se encontrar por ele.
E Djanira segue
o caminho apontado pelo Guardião, sem pensar mais em ser árvore ou flor, pois
seu pensamento buscava o Vale Encantado e Levinho, claro!
Distraída, ia tecendo na tela da imaginação várias figuras e paisagens e a conversar consigo. Veio a noite e ela, sem se dar conta da escuridão e dos perigos que a noite esconde, prosseguia.
Até que...
Quando a madrugada começou a bordar o firmamento com nuvens cor de rosa, ela visualizou o grande Vale! Era imenso! Assustador!
Sem conter a admiração, observou animais exóticos e natureza exuberante, mas ideia mesmo para a travessia, nem de longe lhe vinha à mente.
Djanira estava exausta! Sentou-se, apoiou a cabeça sobre os joelhos flexionados tentando descansar um pouco.
Quem sabe assim, descansada, conseguiria antever uma saída?
Fechou os olhos, inspirou profundamente para “consertar” a respiração, como ensinam os yogis, e uma leve vontade de dormir começou a envolvê-la quando sentiu algo estranho tocar-lhe as costas. Levantou-se num salto e esfregou os olhos para ver melhor: um elefante!
Só
vira elefantes, e nem tão de perto assim, no circo e no zoo, mas a um toque da
mão, nunca!
Por alguns segundos ficou meio paralisada, refém do temor, mas sentindo que o imenso animal era amistoso, aproximou-se, e para surpresa sua, o viu dobrar as pernas e abaixar o corpo gentilmente, para que ela pudesse subir em seu dorso.
Andar num elefante! Nunca lhe passara sequer pela imaginação, uma aventura como
essa!
Uau! Era bom demais!
Ela
ficava quase da altura das árvores mais baixas, via ninhos por outro ângulo, a
vegetação, pássaros e borboletas em voos próximos a sua cabeça, enquanto ele
prosseguia o caminho como se já soubesse o que fazer e para onde ir.
Nisso,
Djanira percebeu que o elefante seguia diretamente para o Vale...
“Com certeza
deve ter algum atalho mais adiante daqui para atravessar” pensou ela, mas o
paquiderme rumava com seus passos ritmados e firmes em direção à ponte, que
longe de ser uma construção sólida, era de troncos e cordas e como apresentasse
espaços muito largos entre um tronco e outro, suas pernas não conseguiriam
fazer a ultrapassagem. Pular seria muito arriscado.
E
se ele a conduzira até ali, certamente era o único caminho a seguir. A
ponte fora construída para que pessoas, ou animais de pequeno porte, dela se
valessem.
O
que será que poderia acontecer?
Então ela viu, com surpresa, que o enorme animal, muito seguro de si, iniciou a
travessia com sua preciosa carga e com toda tranquilidade do mundo!
Seu
corpo ocupava toda a largura da ponte suspensa e ele movimentava-se com a
presteza de um artista de circo, que vive desafiando as leis do equilíbrio,
conhecidas pelos demais como intocáveis e imutáveis.
Ela
podia sentir o roçar do corpo do elefante contra o parapeito da ponte móvel.
Ali, Djanira sentia que tudo era muito mais alto! As nuvens ficavam tão
pertinho...
Ela
encolhia as pernas e esticava o olhar para frente, só para frente, porque
coragem de olhar para baixo, não tinha não! E olhando para frente apenas,
acreditava que chegaria mais rápido em terra firme, embora gostasse da pisada
leve, ritmada do elefante, que parecia dançar.
Espera aí... Leve? Levinho?! Então era ele o seu salvador?!
Ao
chegarem do outro lado do Vale Encantado, Djanira escorregou pelo corpo do
animal e uma vez mais ficou frente a frente com ele, que ao fitá-la, balançou
as orelhas de forma tão graciosa, que a menina não conteve o ímpeto de
abraçá-lo.
Os
problemas? Ela nem se lembrava mais deles!
A
dor e a tristeza já não tinham para ela a mesma dimensão.
Pensava agora que tudo pode ser resolvido como acontece nos sonhos, que
representam a emancipação da alma.
E
do mesmo jeito que Levinho, o elefante gentil, a transportara com segurança
sobre a ponte móvel no Vale Encantado e encantador, ela certamente, o levaria
com leveza e carinho, para todo o sempre, em seu coração.
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Parabéns, querida amiga, por mais esse delicado conto encantado que nos permite sonhar!
ResponderExcluirContar encantos levinhos assim é quase atravessar o Vale Encantado das palavras no corpo em toneladas de um elefante Levinho. Lindo, Dirce!🤩
ResponderExcluirConto levinho com toneladas de encanto do Vale Encantado das palavras no dorso paquidérmico do Levinho!😍
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirLevinho merece virar um livrinho infantil!
ResponderExcluirUm conto , que nos ensina esperar, confiar e agradecer! Obrigada minha querida amiga !
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