terça-feira, 21 de maio de 2019

Constatação


Então você tem um amor...

E afinal quem não tem:
um segredo guardado,
um desejo danado
de se ter um bem?

De sair por aí
em noites de lua
pra namorar,
e um gostoso arrepio
sentindo na pele
pela leveza de se entregar
ao olhar amoroso,
ao falar carinhoso
do seu par

sábado, 4 de maio de 2019

Cântico triste


Filhos do coração,
onde ficam? Onde estão?
Vêm e vão das nossas vidas,
em tempos idos ou de agora,
e porque ao coração é dada
a memória dos seus amores,
não importa quando ou onde,
ao visitar-nos a saudade,
a alma sofre e chora.

Com Deus haverão de estar, é certo,

mas, ainda que separados por séculos,
haveremos vez ou outra,
de senti-los por perto e tão juntinhos,
que sem percebermos,
estendemos a mão num carinho...

Oh, Deus, meu Pai! Eu espero, eu creio!


quarta-feira, 1 de maio de 2019

O Eu e o eu




Eu, gêmeo de mim,
carrego no âmago
o princípio das eras,
a essência das quimeras
que me tornam o que sou.

E quando me vejo nele refletido,
ele me faz comovido
porque na sua ação
eu me desdobro
e estou contido.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Preciosa lição

 Quando os problemas da vida
te levarem à exaustão,
recorda-te da árvore amiga
a preciosa lição:ada

Cortada quase à raíz,
ela de si não esquece,
e num desvelo incansável,
caules tenros refloresce!

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Shakespeare e eu


Encontrei Shakespeare em frente a estante de Literatura Estrangeira.
Se eu trabalhasse em outro segmento escolar, talvez estranhasse o acontecimento, mas na Sala de Leitura é fato comum a qualquer momento esbarrarmos com autores dos mais diversos.

- Bom dia, Sir Willians.
E ele, olhando-me sem surpresa, respondeu gentilmente:
- Bom dia, Mrs.
- Posso ajudá-lo?
- Não quero incomodar.
- Oh, além de ser um prazer, faz parte do meu trabalho.
- Procuro um livro.
- Sobre o que?
- Sobre o século atual.
- O século XXI.
- XXI?!
- Justamente.
- Não é possível!

E olhando detidamente para si mesmo, para mim e em torno, ao deparar-se com um computador, não se conteve:

- O que é aquilo?!
- Ah, é um computador. Venha, vou mostrar-lhe como funciona.
Impressionava o ar de incredulidade no rosto do escritor, que examinava atentamente a máquina, entre a surpresa e a curiosidade, sendo finalmente vencido por esta.

Numa viagem virtual fomos até a Inglaterra e Sir Willians absolutamente aturdido, sentou-se e fez a pergunta que eu já esperava:

- Estaria eu sonhando?
- Não, Sir, tudo isso é real.
- Mas não consigo compreender tal realidade! Vejo pessoas como eu, mas vestidas de forma absolutamente fora dos costumes da minha época, a minha Inglaterra com máquinas estranhíssimas, carruagens sem cavalos, construções que até mesmo em minhas histórias, eu jamais poderia imaginar...
- São marcas e conquistas da evolução.
- E aqui onde estamos seria alguma parte ainda não explorada da Inglaterra, eu suponho.
- Não. Aqui é o Brasil, na parte sul do Continente Americano.
Sir Willians, olhando-me sem crer em tudo que via e ouvira, pediu-me uma pena e um bloco de anotações.
Ao passar-lhe uma esferográfica, ele ergue os ombros, afasta as mãos e acrescenta:
- Onde está o tinteiro?
- Essas penas, ou canetas, como se chamam na modernidade, não precisam de tinteiro. Possuem uma esfera pequenina na ponta, que libera a tinta ao ser friccionada, demonstrei rabiscando uma folha de rascunhos, aumentando a perplexidade do escritor.
- Estaria eu em algum castelo de Merlin? Aquele mago é capaz de tudo!
- Merlin talvez seja responsável por sua viagem no tempo. O senhor está na Biblioteca de uma Escola Pública, alguns séculos após o seu. Veja! Temos todas as suas obras, ou quase todas...
- Meus livros no futuro?!
- Sim.

E os olhos do velho escritor marejaram-se ao ver exemplares em inglês e português como: O Rei Lear, Macbeth, Sonho de uma Noite de Verão, Otelo, Romeu e Julieta, O Mercador de Veneza, Hamlet, A Megera Domada, suas criações seculares compondo uma das estantes sem pompas ou arabescos, mas colorida e em linhas retas, de uma escola pública do século XXI.

E eu, por saber que ninguém acreditaria num fato tão pitoresco, decidi escrever, porque a Literatura encerra a doce magia de emprestar um ar de realidade ao que nos parece impossível de acontecer.


segunda-feira, 16 de julho de 2018

Nomes



A moradora de rua conversava animadamente com alguém.
Sorria, gesticulava e parava um pouco para ouvir seu interlocutor.

Aproximou-se um gozador, sorriu maliciosamente e lançou o veneno:
- Aê, tia... tá animado o papo hein! Qual é o nome do cara de hoje?

Ela interrompeu o diálogo, olhou para o gozador como se olhasse através dele e ao mesmo tempo para dentro de si mesma e respondeu sem pressa:
- Solidão... Medo... Indiferença... Miséria.

Calou-se o gozador.
Calou-se a moradora.
Iniciei um diálogo com o meu coração...

sexta-feira, 1 de junho de 2018

A surpresa


Quando eu cheguei ali no salão grande, bem cedinho, acreditando ser a primeira, ele já estava lá.

Sentadinho, discreto como sempre, quieto, a mão sobre a testa, os olhos fechados, igualzinho ele fazia quando morava ainda aqui, bem juntinho de nós.

Eu fiquei mudinha, com a respiração presa, pra não “atrapaiá” o estado de prece daquele homem tão amado por todos, principalmente os mais fracos, os mais necessitados nesta vida!

Mas será que era ele “memo”, meu Deus?

- Uai, e por que não, Maria? Perguntou ele com aquela mineirice de sempre.   
- Chico, meu fio! É “ocê memo”, criatura?
- E tem outro?
- Ter, num tem não. Mas eu garro matutar aqui com as minhas rezas e bentinhos: será que num tô caducando?
- Não tá não, Maria! Sou eu mesmo como diz o povo, em carne e osso, mas agora em espírito. Mas veja, minha irmã em Deus, vamos rezar juntos? Vamos fazer uma prece na intenção dos que não chegaram ainda, porque nós precisamos muito deles, né memo?
- Ô, Chico, mas eles “veve” dizendo que eles que precisam de nós, meu fio! Como é isso?
- Essa é uma estrada de duas vias, Maria. É daqui pra lá e de lá pra cá, esqueceu? Agora vamos aquietar o coração e deixar que eles venham na companhia dos bons mentores, dos servidores de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 Então o Chico me deu a mão e eu fiquei chorando e vendo todo mundo chegar, se abraçar e sorrir, mas ninguém via nós dois ali, quietinhos, as mãos dadas e o coração cheio de amor e carinho por todos.