terça-feira, 28 de janeiro de 2025
segunda-feira, 4 de outubro de 2021
Fases
o sorriso maroto que se esconde,
que se esgueira por trás dos moirões,
dos troncos sinuosos de árvores estradeiras
só pra ver a vida que corre solta e livre,
tão livre quanto a menina deseja ser.
Mas nasceu fêmea e isso é pecado mortal!
no dizer dos antigos que teimam em
criar altares para as mulheres
e, para os homens, bridão nenhum.
Mas ela, atrevida, se esgueira silenciosa
a ouvir a conversa dos peões,
sem sensuras, sem composturas, sem peias.
Inútil atrelar arreios em potranca arredia
que se aproxima devagarinho, mas foge arisca
num galope provocante e encantador...
E a menina em mulher se fez,
e conquistou a independência, a relativa
liberdade,
e conheceu o prazer e a dor.
Entretanto, apesar de guerreira impetuosa e
forte,
não conseguiu impedir que a morte lhe
roubasse os afetos mais caros ao coração.
Hoje, ainda faz manha, ainda bate o pé e fala
alto
quando pensa que tem razão,
mas sabe ser doce, sabe acolher
porque gosta de ter ao redor de si,
muita gente, muita gente... e assim,
ouvir o ritmo dos corações que em
compassos diferentes
terminam por compor a melodia romântica, que
ela,
sonha um dia inspirar, porque - ainda que não
saiba -,
musa é o que a vida inteira, desejou ser.
segunda-feira, 27 de setembro de 2021
Elos
Fomos chegando aos poucos, quais elos pequeninos
- alguns mais frágeis, outros nem tanto –
formando uma imensa e mágica corrente familiar,
estrelinhas da grande constelação,
atendendo ao chamado de corações na Terra:
*Neuza, Denilson, Creuza;
*Cinésio, Dilma, Valéria;
*Selma, Silma, Portugal, Kleber;
*Cristina, Cláudia, Marta, José Joaquim, Ana Valéria, Maria
Luiza.
*Márcia, Luiz Augusto, Eliane, José Joaquim;
*Belinha, Heloisa, Jorge Luiz, Edna;
*Evaldo, Eraldo;
*Benedita (Ditinha), Solange;
Sandra, Ricardo e eu;
Integrantes de uma ciranda em flor,
cujos pólens eram transportados
carinhosamente, de quando em quando,
a uma colmeia deveras especial:
a casa de vovó Dita e vovô Joaquim,
que embora de volta à Pátria Espiritual,
nunca se foram de nós, jamais morreriam,
porque se fizeram guardiães desse grupo composto de:
S audade
A morosidade
L iberdade de ser
E sperança
S olidariedade.
Gratidão,
Senhor!
domingo, 29 de agosto de 2021
Caminhos
Para Selma Sales
Eu
e o outro:
conflitos
dúvidas
segredos
sussurros
gritos
medos
incertezas.
Eu e a natureza:
silêncio
choro
mergulho em apneia
nas profundezas de mim
caminho em sentido contrário:
parto, gestação, concepção
sintonia perfeita entre
sentimento e razão.
Eu sou. A Natureza é.
Eu e Deus:
introspecção
renascimento
retorno ao ponto de partida
vida a
despir-me de verdades
para vestir-me de poesia.
quarta-feira, 21 de abril de 2021
Mãos dadas
O tempo, esse artista incansável, já lhes tecera no rosto
as rendas de costume, já lhes embranquecera os cabelos e lhes emprestara uma
certa lentidão no caminhar, mas não conseguira tirar deles o hábito antigo das
mãos dadas onde quer que estivessem: na igreja, no cinema, na varanda de casa, nas
ruas da cidadezinha, como se afirmassem naquele gesto uma terna cumplicidade.
Até mesmo na antiga e tão elegante namoradeira para acompanharem
a novela pelo rádio, as mãos se encontravam num idílio tão bonito...
Era assim o velho casal a quem as crianças, mesmo sem
parentesco algum, lhes pediam a bênção.
Era também um tempo diferente, com serenatas pela noite,
lua mansa no terreiro, muita conversa boa, recitais de poesia, brincadeiras de
roda, banda de música no coreto da praça, fotos do lambe-lambe, carrocinha de
algodão doce...
E nem era preciso ter festa. Bastava ser domingo.
Parece que nunca existiu um tempo assim, nem costumes tão
singelos, mas eu que aqui estou ainda, estive lá, morei naquela cidade, e
guardei no coração tanta lembrança boa que não poderia deixar de falar sobre
isso, porque a mim me parece, que nos dias atuais é muito fora de moda, ou
brega -se preferirem- demonstrar-se ternura e falar-se de coisas simples, como
se tivéssemos a obrigação de nos tornarmos enciclopédias ambulantes.
terça-feira, 6 de abril de 2021
A visita
Entre o temor e a curiosidade, venceu a segunda e ao
abrir a porta fiquei sem saber o que fazer ou o que dizer.
Diante de mim, em pé, estava uma cópia de mim mesma!
Embora habituada à minha figura diante do espelho, senti
uma estranheza ao me ver numa outra projeção, uma espécie de 3D, algo deveras
surreal para mim, embora fora acostumada a ver e ouvir fatos e relatos em
situações diversas e bem diferentes do comum.
Deveria convidá-la (ou convidar-me) a entrar?
Venceu a educação e num gesto cortês e uma voz que não me
vinha da garganta eu a fiz (ou me fiz) entrar.
Não sabia o que dizer.
Estranho esse sentimento de ver-nos a nós mesmos e nos
sentirmos tão pouco à vontade...
Deveria oferecer um café ou quem sabe fazer uma prece?
A visitante por sua vez, nada dizia, apenas me acompanhava nos mínimos gestos com um olhar indefinível.
Sempre lera bastante sobre o Eu superior o eu comum, mas seria aquele o meu Eu superior exteriorizado?
Descansei suavemente minha mão sobre a sua e simplesmente
disse num suspiro: Desculpe-me a falta de jeito, mas você sou eu e não sei como
acolher a mim mesma.
Talvez resida nisso os problemas conflitantes entre nós,
simples mortais, o fato de não termos aprendido a acolher a nós mesmos, vermos
as nossas imperfeições como algo natural nesse processo de aprendizagem, que é
viver.
Quantas vezes fomos punidos por errarmos, quando o erro é
parte integrante do acerto...
Por que nossos educadores deram a fatos tão simples uma
complexidade tal que o medo nos calou a voz que deveria sair da garganta e
ganhar todos os espaços?
Nossos olhos marejados e as mãos trêmulas, entrelaçadas
com tanta ternura, desculpavam-se ao entendermos finalmente, que não
precisávamos mais buscar tantos argumentos ou justificativas porque finalmente
compreendemos o valor grandioso do eu em suas dimensões e suas relações com o
outro, com Deus, porque o outro sou eu e ambos estamos no mesmo Deus que há em
nós.
segunda-feira, 8 de março de 2021
Eu e as palavras
Sempre me relacionei bem com as palavras e sempre houve uma grande camaradagem entre a gente.
Uma espécie de acordo, de chave de casa, de idas e vindas sem cobranças.
As vezes, quando o sono se perdia não se sabe exatamente
onde, elas chegavam para me fazer companhia e teciam histórias das mais
variadas, convidavam personagens diversos, ora engraçados, ora tristonhos, ora
musicais, ora poéticos.
E minha função na madrugada era passar um café com alguma
mistura, como se diz no interior, e ouvir toda aquela prosa boa, que, a pedido
das palavras mesmo, eram anotadas por mim.
Leia para nós, elas me pediam, se fazendo de platéia a
rir ou chorar comigo até que o regresso inesperado de sono interrompesse a nossa reunião.
Hoje as palavras não aparecem com a mesma frequência de
antes ou chegam para uma visita de médico, alegando falta de tempo para ficarem
até mesmo para um café...
De vez em quando sinto vontade de sair a procurá-las, mas
prevalece a velha mania de respeitar a vontade alheia e permaneço onde estou.
Mas sinto saudade, confesso.
Aliás, saudade nunca se foi. É uma velha amiga que acabou
tornando-se uma dedicada cuidadora, principalmente quando percebe que insisto
em repetir que guardei alguma palavra, mas não sei exatamente onde...
Saudade é muito generosa. Aliás, ela me faz acreditar que
minha memória pode até dar alguns probleminhas, mas no que depender dela,
jamais se apagará.
Então, eu apóio a cabeça em seu ombro e divido com ela a
minha queixa:
Embora a tecnologia seja incrível, ela jamais substituirá
a presença dos nossos amores, nem mesmo das palavras que insistem em se afastar
de nós, sabia?
Mas eu estou aqui, diz ela num sorriso complacente.
Então começamos a nos lembrar de tanta coisa, de um jeito
tão descontraído, que nos demoramos em abrir a porta aos toques insistentes...
Eolha que surpresa boa! Não é que todas as palavras ausentes voltaram querendo
saber porque nós duas tanto ríamos.
Acho que descobri que quem
afugenta as palavras de nós são o mau humor e a queixa.
Mas vamos combinar que esses
dois são capazes de mandar embora até os amigos mais generosos, não?





